‘Falta de saúde é problema, falta de visão, não’, diz deficiente visual


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Expedito Carlos joga goal-ball, criado para cegos que se guiam pelo som de um guizo na bola
Expedito Carlos joga goal-ball, criado para cegos que se guiam pelo som de um guizo na bola

O massoterapeuta Expedito Carlos de Oliveira, 41, era muito pequeno quando a mãe morreu. Ao completar dez anos, seu pai, com dificuldades para criá-lo, decidiu colocá-lo para morar em uma instituição em São Paulo. Pouco tempo depois, em uma briga com um colega de escola, ele levou uma pedrada no olho esquerdo e perdeu a visão. O olho cego infeccionou e teve que ser extraído. Para complicar, a infecção já havia passado para o outro olho. Expedito deveria ficar em repouso para a infecção ser controlada, mas ele não obedeceu às ordens do médico e, com isso, a retina descolou e foi danificada.

Ele perdeu totalmente a visão do lado direito ainda na infância, aos 12 anos. A história de Expedito tinha tudo para ter um fim melancólico. Mas ele resolveu virar a página e ser feliz. Suas declarações dão uma lição de otimismo para quem costuma só reclamar da vida. “Nunca encontrei um obstáculo que não pudesse ultrapassar por causa da deficiência. (Ser cego) é natural, faz parte do meu dia a dia. Nunca sofri preconceito, até porque não ligo para isso. Não sou doce para as pessoas gostarem de mim (risos).” E qual o segredo de tanto bom- humor? “A vida. A vida é muito boa. A falta de saúde é sim um problema, falta de visão, não”, disse.

De volta a Franca, em 1986, Expedito foi morar na Sociedade Francana de Instrução e Trabalho para Cegos, na Vila Aparecida, onde permaneceu até 2002. A história dele se mistura com a da instituição. Fundada em 1957, tinha como prioridade, até 2000, oferecer moradia para deficientes visuais.

No entanto, neste ano, ela mudou o foco para se tornar um centro educacional, cultural e profissionalizante para deficientes visuais, oferecendo atividades como fisioterapia, terapia ocupacional, aulas de braille, informática, tricô, crochê, goal-ball (jogo de bola), além do trabalho remunerado de cartonagem (montagem de caixas de papelão).

Hoje, são 90 pessoas atendidas por mês pela entidade, sendo apenas quatro moradores. Nem todos os usuários são totalmente cegos; a Sociedade também auxilia as pessoas com baixa visão. O atendimento é gratuito.

Apoio
Expedito ressalta as conquistas que teve com o trabalho prestado na instituição. “Não tenho praticamente nada, mas o que tenho, devo à Sociedade. Aqui, aprendi a ler e a escrever em braille, a andar sozinho. Uma entidade como essa para o deficiente é o que há, porque ela te transforma num grande cidadão. A gente não precisa de piedade, e sim de compreensão”, disse.

O massoterapeuta é casado com Giovana, 36, que também é cega. Eles se conheceram em 2000, quando ela morou na entidade para aprender a conviver com a sua deficiência (ela perdeu a visão aos 24 anos). Namoraram dois anos e depois de casados se mudaram para uma casa no Jardim Paulista. O casal tem dois filhos: Amanda, 10, e Igor, 7, que enxergam normalmente.

Autonomia
Expedito tem uma rotina independente. Com auxílio da bengala, caminha sozinho pelas ruas e faz compras no supermercado. Ele reclama que as calçadas em Franca deveriam ser todas cimentadas e as pilhas de entulhos eliminadas. “Ando na beirada da rua.”

Na Sociedade, auxilia na cartonagem e atende clientes para massagens em uma sala própria. Expedito também faz parte do time de goal-ball, esporte desenvolvido para deficientes visuais. A bola contém um sino para que os jogadores se orientem pelo som para saber onde ela está. O objetivo do jogo é impedir gols.
 

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