Há dez anos, em Manhattan, escrevi este texto, que repriso. Aqui estou, no ‘Ground Zero’, onde. há pouco mais de um ano se erguiam as torres do World Trade Center. São duas da manhã e tem gente do mundo inteiro olhando o canteiro de obras. No dia seguinte, volto. Com o sol brilhando é possível perceber a tragédia. É impossível não imaginar a cena do avião entrando pela parede. O barulho infernal, a bola de fogo e a queda das torres. E a nuvem de cinzas e pó.
A mente voa. Terá sido assim a Londres depois de bombardeios alemães? Hiroxima e Nagasaki? O Líbano? A Sérvia? E em todos os conflitos onde o homem lançou suas armas de destruição? Talvez, mas com as torres gêmeas havia uma diferença: não existia guerra. E vem daí o choque: houvesse a guerra, seria de se esperar. Eu estava ali, vendo milhares de oferendas penduradas nas paredes, fotos dos desaparecidos, bilhetes de familiares e amigos. Uma bandeira do Brasil. Uma garota, cara de chinesa, pendurando mais um bilhete.
A obra de Bin Laden foi perfeita na execução, nos objetivos, na eficiência e na capacidade de chocar. E agora, o que mais pode chocar? Um artefato atômico na grande cidade? Pode apostar. E com consequências muito mais catastróficas, mas não tenho certeza se repetindo o impacto de 11 de setembro de 2001. O canteiro de obras é cicatriz gigantesca, mas que só dói mais porque foi ao vivo, em cores, atingindo gente igual a gente. Dói porque teve mídia. Revivo. Ouço os sons, sinto o cheiro, sufoco com o pó, corro de medo, choro com o bombeiro, pego no colo a criança, grito por vingança. Pergunto-me o que mudou. Descubro, entristecido, que quem mais sofreu foi a liberdade. Passamos a ser mais vigiados, mais desconfiados. Senti meu coração vazio. Louco para voltar para a paz(!), segurança (!), falta de preconceito(!) do meu Brasil. Ao menos para isso serviu.
Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista
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