Um aluno da Escola Estadual “Adelina Pasquino Cassis”, no Jardim do Éden, está com problemas de aprendizagem e comportamento. Na última semana, durante uma aula, ele ficou pulando sobre uma cadeira até quebrá-la. A professora Izabel Cristina dos Santos, 43, foi quem conversou sobre os problemas com a mãe e depois com o pai da criança, que se divorciaram. Como o menino mora com a mãe, Izabel sugeriu que o pai ficasse mais presente na vida do filho.
Izabel não é a professora do garoto nem psicóloga. Ela é a professora mediadora da escola, cargo que ocupa há dois anos. O programa que instituiu a figura de professores mediadores na rede estadual existe há três anos. Hoje, já são 46 profissionais atuando na região de Franca.
Em entrevista ao Comércio na quarta-feira, 11, Izabel, que é professora de educação física, contou suas experiências no programa. Ela se dedica exclusivamente a ele e deixou de dar aulas na Escola Estadual “David Carneiro Ewbank”, onde estava havia oito anos. Izabel diz que não se arrepende de ter deixado as aulas e já vê resultados positivos em seu trabalho. “Os conflitos podem ser resolvidos antes de chegar no diretor, então poupamos o tempo deles.”
Por que a senhora quis se inscrever no programa para se tornar mediadora e como foi a inscrição?
O diretor da Escola “David Carneiro Ewbank” que me informou sobre o programa. Para me inscrever, fiz uma carta, enviei para o chefe da Diretoria de Ensino, fiz uma entrevista com ele e depois com os diretores das escolas. Sempre gostei desse tipo de trabalho. Como mediadora, sou psicóloga, assistente social, é tudo uma coisa só. E a minha área, que é a educação física, já trabalha isso. A criança tem um contato muito próximo com o professor de educação física, ela desabafa, revela muito os seus problemas familiares. Sempre gostei de trabalhar com esse tipo de coisa, e o professor mediador precisa ser muito amigo dos alunos para poder ajudar nos conflitos.
Em algum momento a senhora teve receio de atuar nesse tipo de função?
No começo, tive muito medo, porque sempre ouvia falar que o trabalho de mediador vem com uma bagagem muito grande de problemas, principalmente pelo envolvimento com drogas e ocorrências de agressão entre os estudantes. Mas não é bem assim, não. Na hora em que você está dentro do programa, é outra realidade, bem mais leve. Gosto muito do que faço.
Ao se tornar professora mediadora, que mudanças ocorreram na sua rotina? E alterou carga horária ou salário?
Não, o salário é o mesmo. Ganho por aula, que é por volta de R$ 12. A carga horária também não muda, cumpro 32 horas dentro da escola. Mas sempre falo que tenho horário para chegar e não para sair. Se já deu o meu horário e chega uma mãe ou um pai, vou atendê-los. Não dou mais aula de educação física, apenas faço as mediações, porque é muito puxado, temos várias funções. Meu trabalho não é só mediar dentro da escola. Tenho que cumprir horas e atividades extras, que utilizo para levar crianças com problemas de faltas na escola ao Conselho Tutelar, além de fazer visitas às casas dos alunos. Se vem uma mãe pedir ajuda, indicamos os órgãos onde ela precisa ir, e muitas vezes a gente até as leva até lá.
Com que tipo de conflito a senhora mais tem que lidar?
O bullying. Dentro da escola, ele acontece direto. Infelizmente, ainda existem alunos que chamam os outros de negro, de gorda. Podem parecer coisas pequenas, mas mexem muito com o emocional da criança. Por isso falo que a gente precisa ser um pouco psicóloga também. De uns dez casos que atendo por dia, uns quatro ou cinco são de bullying. Geralmente, eles são mais frequentes com os alunos da sexta série, porque da quinta para a sexta série, a mudança de comportamento é muito grande.
E de que forma esses conflitos são mediados?
A minha ação é a seguinte: sempre que chega um conflito para mim, trago todas as crianças envolvidas na minha sala e faço uma roda de conversa. Escuto a fala de cada uma, depois é que falo com elas. Se não consigo fazer com que o conflito seja resolvido entre elas, encaminho para a direção da escola. Mas, quando é algo mais tranquilo, falo que eles são amigos, para eles pararem com isso, explico o que é bullying para eles e porque não devem praticar isso. Tem situações em que tenho que pedir para eles fazerem trabalhos para mostrar o que é bullying, como uma forma de refletirem sobre isso. Além da mediação, a gente tem uma parceria com o curso de psicologia da Unifran (Universidade de Franca), que atende pais e alunos. Aqui há muita separação de pais o que costuma gerar muitos problemas para os alunos e que refletem na escola.
Como a senhora lida com casos mais graves, como agressões físicas?
Converso com eles, vejo a situação, mas depois passo para a direção, que convoca os pais para orientações e esclarecimentos.
A senhora disse que também realiza um trabalho de conscientização sobre o bullying nas salas de aula. Como funciona esse projeto?
Passo vídeos para eles e, depois, eles desenvolvem trabalhos e seminários dentro da sala de aula. Isso acontece com frequência. Se a sala tem um índice maior de conflitos, faço esse trabalho uma vez por mês. Quando você mostra realmente o que é a situação, eles entendem melhor, e gera bons resultados no comportamento deles.
Em matéria publicada no mês passado, o Comércio divulgou que 90% dos encaminhamentos de escolas recebidas pelo Conselho Tutelar são de faltas. A evasão escolar é um problema grave na sua escola?
Infelizmente, temos casos principalmente nas turmas do período noturno, que são do ensino médio. Em vista de outras escolas de Franca, não são muitos casos, mas eles existem.
E, na opinião da senhora, qual é a causa da evasão?
Acredito que por negligência dos pais, que não participam das reuniões com os professores, não participam da vida escolar dos filhos. Nesses casos, sugiro que os pais sejam mais presentes na vida dos filhos.
Nessa mesma reportagem de agosto, mostramos que o número de professores mediadores dobrou na Diretoria de Ensino de Franca, de 23 em 2010 para 46 neste ano. 90% dos diretores aprovam o projeto. A que a senhora atribui esse resultado positivo?
Os diretores enxergaram a importância do professor mediador na escola. São coisas pequenas que podem ser resolvidas antes de chegar ao diretor, então poupa o tempo deles. Além disso, mediar os conflitos aqui evita que eles se tornem problemas lá fora. Antes de entrar na escola, tinha muita briga, e hoje está mais calmo.
Como é a resposta dos alunos ao seu trabalho?
Está dando muito certo, eles estão até muito dependentes de mim. Se essa função for retirada, a escola vai ter muito problema. Com a presença do professor mediador, a postura dos alunos mudou. E não sou brava, me tornei amiga deles. Eles me respeitam. Temos um aluno da 8ª série que era muito agressivo. Hoje, ele ainda dá trabalho, mas antes tinha que conversar com ele direto. Ele mudou totalmente o seu comportamento, passou a fazer coisas na sala de aula e trabalhos que antes ele não fazia, me respeita e não é mais violento. Hoje, ele é um novo aluno. Tínhamos problemas com meninas também, que brigavam sempre no recreio e hoje fazem projetos sociais. Elas são outras pessoas.
O programa dos professores mediadores é de renovação anual. A senhora pretende continuar no programa?
Isso depende da direção porque todo ano ela responde a um questionário sobre a minha atuação. Em novembro ela define se correspondi às expectativas ou não, e se devo permanecer. Mas, se dependesse só de mim, continuaria; gosto muito do que faço. Já fiz um trabalho similar em Itirapuã, com pequenos infratores, há uns oito anos. Trabalhava esportes com eles, mas também fazia mediações. Quero ficar por ter me identificado muito com o trabalho. Até sinto falta de dar aulas de educação física, mas me sinto realizada sendo mediadora.
Como é a rotina da senhora enquanto mediadora?
Vejo problema o dia inteiro. E tem casos críticos, com muitas famílias desestruturadas. Quando fui à casa de um aluno, ele não tinha o que comer e isso me procupou. Temos algumas crianças muito carentes aqui, que, geralmente, são as que têm problemas mais sérios, porque elas são carentes de tudo. Os estudantes até falam que são meus filhos. Se vejo algum caso com necessidade de atendimento mais aprofundado, repasso para o Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social). Mas, no geral, a escola é boa porque, perto de escolas da periferia por exemplo, aqui é tranquilo. Apesar de alguns casos mais complicados, 90% dos pais são muito presentes. Se chamamos, os pais comparecem.
Como a senhora analisa a sua trajetória como mediadora nesses dois anos?
Cresci e aprendi muito como mediadora. Aprendo muito, inclusive com as crianças. Compareço a reuniões com a Diretoria de Ensino uma vez por mês e troco ideias com outras professoras mediadoras.
A senhora falou que sua escola está até bem, se comparada às outras. Como a senhora analisa a realidade das escolas da rede estadual em Franca?
Em outras escolas, há muitos conflitos que envolvem o uso de drogas e bullying. Situações como o do professor que foi espancado por alunos (o professor de história José Maria de Oliveira Júnior, em agosto do ano passado), ou seja, aqueles casos mais críticos de violência, são isolados. Na minha escola, também temos problemas com drogas, mas não dentro da escola, na porta dela, e ficamos em cima disso. Mas tem escolas nas quais, infelizmente, esse problema é muito maior.
O diretor da Escola “David Carneiro Ewbank” que me informou sobre o programa. Para me inscrever, fiz uma carta, enviei para o chefe da Diretoria de Ensino, fiz uma entrevista com ele e depois com os diretores das escolas. Sempre gostei desse tipo de trabalho. Como mediadora, sou psicóloga, assistente social, é tudo uma coisa só. E a minha área, que é a educação física, já trabalha isso. A criança tem um contato muito próximo com o professor de educação física, ela desabafa, revela muito os seus problemas familiares. Sempre gostei de trabalhar com esse tipo de coisa, e o professor mediador precisa ser muito amigo dos alunos para poder ajudar nos conflitos.
Em algum momento a senhora teve receio de atuar nesse tipo de função?
No começo, tive muito medo, porque sempre ouvia falar que o trabalho de mediador vem com uma bagagem muito grande de problemas, principalmente pelo envolvimento com drogas e ocorrências de agressão entre os estudantes. Mas não é bem assim, não. Na hora em que você está dentro do programa, é outra realidade, bem mais leve. Gosto muito do que faço.
Ao se tornar professora mediadora, que mudanças ocorreram na sua rotina? E alterou carga horária ou salário?
Não, o salário é o mesmo. Ganho por aula, que é por volta de R$ 12. A carga horária também não muda, cumpro 32 horas dentro da escola. Mas sempre falo que tenho horário para chegar e não para sair. Se já deu o meu horário e chega uma mãe ou um pai, vou atendê-los. Não dou mais aula de educação física, apenas faço as mediações, porque é muito puxado, temos várias funções. Meu trabalho não é só mediar dentro da escola. Tenho que cumprir horas e atividades extras, que utilizo para levar crianças com problemas de faltas na escola ao Conselho Tutelar, além de fazer visitas às casas dos alunos. Se vem uma mãe pedir ajuda, indicamos os órgãos onde ela precisa ir, e muitas vezes a gente até as leva até lá.
Com que tipo de conflito a senhora mais tem que lidar?
O bullying. Dentro da escola, ele acontece direto. Infelizmente, ainda existem alunos que chamam os outros de negro, de gorda. Podem parecer coisas pequenas, mas mexem muito com o emocional da criança. Por isso falo que a gente precisa ser um pouco psicóloga também. De uns dez casos que atendo por dia, uns quatro ou cinco são de bullying. Geralmente, eles são mais frequentes com os alunos da sexta série, porque da quinta para a sexta série, a mudança de comportamento é muito grande.
A minha ação é a seguinte: sempre que chega um conflito para mim, trago todas as crianças envolvidas na minha sala e faço uma roda de conversa. Escuto a fala de cada uma, depois é que falo com elas. Se não consigo fazer com que o conflito seja resolvido entre elas, encaminho para a direção da escola. Mas, quando é algo mais tranquilo, falo que eles são amigos, para eles pararem com isso, explico o que é bullying para eles e porque não devem praticar isso. Tem situações em que tenho que pedir para eles fazerem trabalhos para mostrar o que é bullying, como uma forma de refletirem sobre isso. Além da mediação, a gente tem uma parceria com o curso de psicologia da Unifran (Universidade de Franca), que atende pais e alunos. Aqui há muita separação de pais o que costuma gerar muitos problemas para os alunos e que refletem na escola.
Como a senhora lida com casos mais graves, como agressões físicas?
Converso com eles, vejo a situação, mas depois passo para a direção, que convoca os pais para orientações e esclarecimentos.
A senhora disse que também realiza um trabalho de conscientização sobre o bullying nas salas de aula. Como funciona esse projeto?
Passo vídeos para eles e, depois, eles desenvolvem trabalhos e seminários dentro da sala de aula. Isso acontece com frequência. Se a sala tem um índice maior de conflitos, faço esse trabalho uma vez por mês. Quando você mostra realmente o que é a situação, eles entendem melhor, e gera bons resultados no comportamento deles.
Em matéria publicada no mês passado, o Comércio divulgou que 90% dos encaminhamentos de escolas recebidas pelo Conselho Tutelar são de faltas. A evasão escolar é um problema grave na sua escola?
Infelizmente, temos casos principalmente nas turmas do período noturno, que são do ensino médio. Em vista de outras escolas de Franca, não são muitos casos, mas eles existem.
E, na opinião da senhora, qual é a causa da evasão?
Acredito que por negligência dos pais, que não participam das reuniões com os professores, não participam da vida escolar dos filhos. Nesses casos, sugiro que os pais sejam mais presentes na vida dos filhos.
Nessa mesma reportagem de agosto, mostramos que o número de professores mediadores dobrou na Diretoria de Ensino de Franca, de 23 em 2010 para 46 neste ano. 90% dos diretores aprovam o projeto. A que a senhora atribui esse resultado positivo?
Os diretores enxergaram a importância do professor mediador na escola. São coisas pequenas que podem ser resolvidas antes de chegar ao diretor, então poupa o tempo deles. Além disso, mediar os conflitos aqui evita que eles se tornem problemas lá fora. Antes de entrar na escola, tinha muita briga, e hoje está mais calmo.
Como é a resposta dos alunos ao seu trabalho?
Está dando muito certo, eles estão até muito dependentes de mim. Se essa função for retirada, a escola vai ter muito problema. Com a presença do professor mediador, a postura dos alunos mudou. E não sou brava, me tornei amiga deles. Eles me respeitam. Temos um aluno da 8ª série que era muito agressivo. Hoje, ele ainda dá trabalho, mas antes tinha que conversar com ele direto. Ele mudou totalmente o seu comportamento, passou a fazer coisas na sala de aula e trabalhos que antes ele não fazia, me respeita e não é mais violento. Hoje, ele é um novo aluno. Tínhamos problemas com meninas também, que brigavam sempre no recreio e hoje fazem projetos sociais. Elas são outras pessoas.
O programa dos professores mediadores é de renovação anual. A senhora pretende continuar no programa?
Isso depende da direção porque todo ano ela responde a um questionário sobre a minha atuação. Em novembro ela define se correspondi às expectativas ou não, e se devo permanecer. Mas, se dependesse só de mim, continuaria; gosto muito do que faço. Já fiz um trabalho similar em Itirapuã, com pequenos infratores, há uns oito anos. Trabalhava esportes com eles, mas também fazia mediações. Quero ficar por ter me identificado muito com o trabalho. Até sinto falta de dar aulas de educação física, mas me sinto realizada sendo mediadora.
Como é a rotina da senhora enquanto mediadora?
Vejo problema o dia inteiro. E tem casos críticos, com muitas famílias desestruturadas. Quando fui à casa de um aluno, ele não tinha o que comer e isso me procupou. Temos algumas crianças muito carentes aqui, que, geralmente, são as que têm problemas mais sérios, porque elas são carentes de tudo. Os estudantes até falam que são meus filhos. Se vejo algum caso com necessidade de atendimento mais aprofundado, repasso para o Cras (Centro de Referência de Assistência Social) e Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social). Mas, no geral, a escola é boa porque, perto de escolas da periferia por exemplo, aqui é tranquilo. Apesar de alguns casos mais complicados, 90% dos pais são muito presentes. Se chamamos, os pais comparecem.
Como a senhora analisa a sua trajetória como mediadora nesses dois anos?
Cresci e aprendi muito como mediadora. Aprendo muito, inclusive com as crianças. Compareço a reuniões com a Diretoria de Ensino uma vez por mês e troco ideias com outras professoras mediadoras.
A senhora falou que sua escola está até bem, se comparada às outras. Como a senhora analisa a realidade das escolas da rede estadual em Franca?
Em outras escolas, há muitos conflitos que envolvem o uso de drogas e bullying. Situações como o do professor que foi espancado por alunos (o professor de história José Maria de Oliveira Júnior, em agosto do ano passado), ou seja, aqueles casos mais críticos de violência, são isolados. Na minha escola, também temos problemas com drogas, mas não dentro da escola, na porta dela, e ficamos em cima disso. Mas tem escolas nas quais, infelizmente, esse problema é muito maior.
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