Pop é abreviatura de popular, de cultura popular, mas também é estilo de música americana ou cantada em inglês. Tecnicamente, é sigla de ‘Poluentes Orgânicos Persistentes’, compostos estáveis no ambiente, que não se desintegram facilmente. É, ainda, programa de vídeos na televisão, provedor de internet, nome de videogame ou de jogo, como quem gosta de ‘Príncipe da Pérsia’ diz.
Agora, por programa de governo, há outro significado para Pop: é o lugar onde morador de rua pode, a partir de agora, tomar banho, alimentar-se, usar sanitários, ter assistência médica, odontológica e psicológica, e se encontrar com profissionais que se preocupam com eles. O local, uma residência de alto padrão, com piscina, na avenida Hélio Palermo, receberá recursos mensais na ordem de R$ 31 mil reais — só a locação custa R$ 7 mil — para manter estrutura ‘bonita e funcional, para dar dignidade a quem lá estiver’, segundo fonte da Prefeitura com quem conversei.
Parece-me outra brincadeira estilo ECA (lei de proteção à criança e ao adolescente, linda no papel mas que , na prática, não funciona por falta da estrutura que deveriam ter criado para garantir a aplicação, mas não criaram), ou do ‘Mais Médicos’ (criado por quem pensa que o problema da saúde brasileira é falta de profissionais e não de estrutura, equipamentos e recursos). Somos um povo brincalhão, despreocupado, que não fiscaliza e nem cobra os políticos que elege. Há alguns meses, o juiz José Rodrigues Arimatéa determinou à polícia que identificasse e documentasse os moradores de rua que, via de regra, incomodam os passantes, seja ‘vestidos’ de flanelinhas ou pedindo dinheiro. A Defensoria Pública foi contra. Na justiça, conseguiu liminar para o fim da operação determinada pelo juiz e a volta do direito de ir e vir, de permanecer na rua, de não fazer nada, tapa na cara do restante da sociedade que tem que trabalhar e obedecer a regras.
Vá eu ou você urinar ou defecar em praça pública, ou andar atrás de alguém que sai da padaria para pedir dinheiro. Também temos esses direitos, não temos? Em última instância, não é isso que se depreende da liminar? É, mas claro, não vamos agir assim. Ruminamos a informação, revoltamo-nos e... ficamos calados. Ninguém foi para as ruas apoiar o juiz ou contestar os defensores públicos, ou a decisão da justiça. Aceitamos. Damos aval.
Volto ao fato novo, o Centro Pop. Dará certo? Conseguirá demover quem está nas ruas sob a guarda da lei, para que deixam essa condição? Sinto, mas nada mudará. Os desocupados vão continuar no dolce far niente a que estão acostumados. Quem é que não quer direitos, e nenhum dever? Lembro-me dos esforços de Adair Carvalho, do Abrigo Provisório, ele que estendia seus horários de trabalho às madrugadas de extremo frio e sem ganhar nada por isso, para convencer moradores de rua a irem para o Abrigo, onde teriam banho quente e alimentação. Só os ‘convencidos’ iam. Apenas raiada a madrugada, rua para que te quero. Por quê? Segundo eles, é simples: ‘nas ruas ninguém me dá ordem, me dão dinheiro, compro minha pinga, durmo a hora que quero, não me obrigam a ir à privada. É bom estar na ruas.’.
Vamos resumir: este país privilegia a ociosidade, a vagabundagem, a malandragem. Cipoal de leis invertidas e caolhas protegem e dão bônus a quem desobedece deveres constitucionais. O paradoxo é contundente: o Centro Pop é bancado por nós, trabalhadores que, por vezes, não temos o que por na panela, que temos água e luz cortadas por que sobra mês no fim do dinheiro. É triste saber que o Estado continua criando mordomias para quem não quer nada com nada, seja nas ruas, no crime, no exercício político. Como seria bom se Deus praticasse só mais um milagre real, permitindo ao povo brasileiro entender que voto e fiscalização dura do votado são os únicos caminhos para resolver essas excrescências todas. Como manada emburrecida, continuamos desconhecendo nossa força...
Luiz Neto
Editor de Opinião - luizneto@comerciodafrranca.com.br
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