Já fui muito cético, principalmente no que se referia às ocorrências de que tomava conhecimento por indiretas fontes.
- Escuta, estão dizendo que...
Duvidava sempre, inclusive, às vezes, até do que me mostravam, comportando-me como mineiro:
-Deixa eu ver... deixa eu ver.
Examinava contra a luz, perto e longe dos olhos, deixava, na coisa ou no trem, todas as minhas digitais de todos os dedos de ambas as mãos. E continuava desconfiado, o coração repleto de dúvidas. O teste do olfato e da audição passavam despercebidos do interlocutor e nada acrescentavam, senão mais incertezas.
Lembro-me de fato acontecido nos tempos de colegial. Colega de classe apontou-me rapaz na rua, fez confidência:
- Tá vendo aquele ali? Deve ser doido. Você acredita que ele, no aniversário do pai dele, mandou um caixão de defunto de presente pro velho?
Desconsiderei a informação, classificando-a como lorota, resultado da maledicência de cidadezinha.
O tempo andou e me ensinou, à custa de pancadas fortes, um punhado de coisas. Dentre elas, aprendi que há mais verdade entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia, conforme ensinou o “bardo do Avon”.
Interessa é que o tempo ensinou e eu aprendi que o ceticismo absoluto é burrice. Por isso, na atual fase da vida, faço minhas as palavras da canção:
...não sou nenhum São Tomé.
No que não vejo, eu ainda boto fé...
Um preâmbulo comprido, para um objetivo talvez sem relevância: desejo que acreditem que acreditei piamente na história (provavelmente fantástica para alguns) que me contaram esta semana e ocorrida em cidade vizinha, provocando comentários díspares.
Ei-la.
Indivíduo completou oitenta anos, foi à agência funerária, escolheu caixão e adereços, pagou à vista. Saindo dali, foi direto ao alfaiate. Fez que lhe tirassem as medidas, escolheu tecido, mandou confeccionar terno. Em seguida, foi a uma gráfica, mandou imprimir convites especiais, enviou-os aos parentes e aos amigos. Convidava-os para excepcional encontro.
Antes de a sobremesa ser servida, pediu a palavra e, em discurso rápido, explicou que fazia a despedida dos amigos e da vida. E acresceu:
- Espero viver mais de cem anos, mas, por via das dúvidas, a despedida já está feita.
Certamente haverá quem duvide de que isso aconteceu de fato. Eu, não.
Estou convencido hoje de que tudo existe e de que tudo é possível e de que a única normalidade é esta: há doido de todos os tipos de todos os feitios.
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
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