Chega a público na manhã deste sábado, as 500 cópias do livro Chico Franco, escrito pelo francano Luiz Cruz, que retrata a memória da cidade através da esclerose do personagem título, que teima em viver em uma Franca dos anos 60. O lançamento ocorrerá entre as 10h30 e 12 horas, no Sebo Almanaque, que fica na rua Júlio Cardoso, 2.072, com entrada gratuita.
As crônicas que se agrupam na obra são, na grande maioria, textos já publicados no caderno Nossas Letras, do Comércio. De acordo com o autor, seu objetivo foi preservar nas páginas os aspectos históricos, culturais e urbanos da Terra do Calçado, mas sob o olhar da gente simples. “A História de Franca não é feita pela elite econômica ou social. A História de Franca é feita, primeiramente, pela horda de mineiros, nordestinos e sulistas miseráveis que vieram para cá, sendo muitas vezes explorados por não conhecerem nada sobre divisão de classes”, disse em entrevista. “Eu chamo o meu livro de fragmentos da memória francana”, completou.
Em Chico Franco é recorrente a menção a tipos como motoristas de praça, gerentes de banco, atendentes etc. Trata-se de personagens reais ou apenas inspirados em figuras conhecidas?
São personagens reais! Você vê ali tipos exóticos como o Geraldo Pelotão; os poetas francanos, representados pelo Carlos Assunção e o Josaphat Guimarães França; os intelectuais, representados pelo Sebastião Expedito Ignácio, Alfredo Palermo... Ali também retrato os jornaleiros, entregadores, mecânicos, aposentados, políticos, enfim, as pessoas que construíram Franca. Também aparecem na história de Chico, elementos da paisagem física da cidade, como o prédio Franca do Imperador, que foi o primeiro construído em Franca, a padaria Minerva, que desapareceu há 50 anos e muitos outros.
Por diversas vezes Chico se recusa a embarcar em caronas sob a justificativa de que “o coração do homem está nas pernas”...
O Chico diz isso a todo momento no livro, mesmo. Meu meu objetivo principal, com essas palavras, era dizer que o indivíduo que anda tem o coração bom. O indivíduo que fica imóvel, vai ficar doente. O Chico anda o dia inteiro, e a pé, porque é sua forma de manter da saúde.
Seu protagonista tem a visão turva e vê quase nada do seu presente. Essa seria a chave para a nitidez com que enxerga seu passado?
Exato! Ele só enxerga bem o passado. O presente está em névoas para ele. Para se ter uma ideia, ele ainda levanta o chapéu para cumprimentar as pessoas, mas ninguém presta atenção à ele. As pessoas não o enxergam, mas ele também não enxerga as pessoas. Ele anda pelo passado e as pessoas pelo presente.
E se a falta de visão não o “ajudasse”, qual seria a reação de Chico ao ver as rugas na pele dos “jovens” que conheceu há 50 anos?
Eu acho que ele enlouqueceria. Eu acredito que o perder a visão, o ficar um pouco surdo, são armas que a vida dá às pessoas para defenderem a si mesmas. Digo isso porque quem não consegue acompanhar a mudança, se assusta quando ela chega, enlouquece. Eu tenho uma experiência para contar: o meu avô, quando viu pela primeira vez uma mulher de maiô na televisão, nos fez desligar o aparelho imediatamente; fez um escândalo. O tempo corre demais e atropela a gente.
As histórias que o Chico conta, são fruto de pesquisa ou da “cabeça de elefante” do Luiz Cruz?
São frutos de pesquisa. Sempre que eu queria narrar algum fato eu pedia socorro. Fiz várias entrevistas, pesquisei no arquivo histórico, no acervo do jornal Comércio da Franca... Esse livro me custou quase cinco anos de pesquisa. Se eu ouvia alguma história com algum velhinho, corria para confirmar com outros cinco (risos).
No livro, Chico encontra nos breves diálogos que tece com os “jovens” de outrora a ressonância de suas memórias mas, aos personagens que não conheceram a Franca da Rua dos Bondes, Chico parece um louco. Em dado momento o narrador explica que eles vivem em mundos distantes, embora dividam a mesma rua. Você acredita nesta distancia abissal entre a juventude e a maturidade?
Exatamente. Os jovens reais do livro não dão atenção ao Chico porque ele pertence a um mundo que eles não têm sensibilidade para imaginar que existiu. Esse jovem não tem ainda sensibilidade suficiente para imaginar que um dia, se ele tiver sorte de viver até lá, será como o Chico Franco. E assim é.
Como foi encontrar-se com Chico Franco, no capítulo Telefones?
O seu Vadico, que aparece no livro, é o meu pai e eu quis homanageá-lo. Então neste texto eu apareço conversando com o Chico e isso, para mim, foi muito emocionante. Hoje, todo mundo pega o telefone e fala sem parar mas não imagina o custo que isso teve para muitas pessoas humildes, que trabalharam como operário para que isso acontecesse, como o meu pai. É um capítulo que mexe muito comigo. Minhas três irmãs foram telefonistas no prédio que meu pai ajudou a construir.
Nas fotos que ilustram o livro, você aparece vestindo a “pele” de seu alter ego - terno claro, chapéu e bengala - e caminhando pelos pontos prediletos de Chico Franco. Como foi essa experiência? Sentiu a mesma estranheza de olhares que descreve na obra?
Sim! (risos). Eu aluguei um terno, arranjei um chapéu e bengala emprestados e fui fazer as fotos. Pedi a vários amigos para posassem mas ninguém quis “pagar esse mico” na praça, aí fui eu mesmo (risos). E as pessoas também me olhavam de modo estranho, engraçado! Não há nada pior que ser o centro das atenções.
Depois das fotos, você aproveitou esse momento para brincar de ‘faz de conta’ e se permitiu uma conversa fortuita na Praça Barão?
Não! Eu estava morrendo de vontade de chegar em casa para tirar (risos). Todo mundo olhava para mim. Quando me reconheciam era pior ainda. As pessoas achavam que o Chico era real e diziam: Oh, Cruz, eu não conheço esse “sô” Francisco lá da Vila Nova... (risos).
SERVIÇOS
Chico Franco
Data: 14/09/2013
Local: Livraria Sebo Almanaque -
rua Júlio Cardoso2.072
Horário: entre as 10h30 e 12 horas
Entrada: Gratuita
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.