Nivelando por baixo


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Publiquei, no Facebook, frase de Woody Allen: ‘O mundo divide-se em pessoas boas e más. As boas têm sono tranquilo. As más divertem-se muito mais’. Entrou comentário: ‘A gente dissemina essa ideologia por aí, como se fosse piada. Depois se surpreende quando lê sobre corrupção, crimes. Será que não teríamos ganho se questionássemos esses slogans a partir de suas consequências práticas, no mundo real, no Brasil do Real?’. Respondi: essa frase só está aqui por causa de quem a criou. É preciso saber quem é Woody Allen para entender a ironia. Na escolha entre ter sono tranquilo ou divertir-se, eu prefiro sono tranquilo. Chamar frase de humor de ‘ideologia’ é patrulhamento ao cubo.

Outro leitor: ‘A ironia é um perigo. Fosse presidente colocaria obrigatório os dizeres: ‘Atenção: isto é uma ironia. Na persistência dos sintomas, médico deverá ser consultado’’. Não estou sendo irônico... Neste país devemos tomar sim, cuidado com o que dizemos. Tem gente grande que acha que batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão.

Deixando de lado o patrulhamento ideológico, o que mais me incomodou foi a insinuação: nivele-se pelos pocotós. Não use ironia, não escreva coisas que possam interpretar mal... Mas esse é exatamente o método dos políticos para controlar a população: infantilização dos discursos, absoluta falta de provocação ao pensamento crítico.

Quando penso em escrever, ou ao escolher minhas leituras e produtos culturais, tenho em mente a informação contida e o esforço mental que será exigido para ser compreendido.

Se a informação é nenhuma, não perco tempo. Se é relevante, mas não exige esforço, invisto, mas sem expectativa. Quando é relevante e exige esforço para ser compreendida, mergulho. Forçarei a musculação cerebral até o limite, sairei extenuado, mas com a certeza de que subi de nível. A alternativa é permanecer imbecil.

Luciano Pires
Jornalista, escritor, palestrante, cartunista

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