Quando o vazio regula a existência, de modo que o significado disso a que chamamos vida fica sintetizado na sobrevivência material e o outro passa a ter pouco, quase nulo ou deslocado valor simbólico; quando a indignidade está no não-reconhecimento social do sujeito pelo simples fato de ele não possuir o último smart phone que balize essa segunda vida, ilusória e descompromissada, que são as redes sociais; quando estamos falando de jovens amortecidos pelo vício das drogas, desafetados, movidos pelo desejo da próxima e rápida ‘viagem’, temos uma versão pós-moderna daquilo que em ‘Punir e Vigiar’, o filósofo francês Michel Foucault chamou ‘homens infames’, aqueles que estão na inapreensível fronteira entre a loucura (nosográfica, medicável, terapeutizável) e a perversidade, o reino obscuro da apreciação moral.
Tento refletir, nessas linhas, sobre a crescente crueldade de assaltantes a suas vítimas, em notícias veiculadas neste e nos jornais de todo o país. De dentistas queimados vivos, bebês atirados n’água para se afogar, de crianças assassinadas, idosas estupradas, a pais espancados ou baleados diante da família, de tudo já se viu nesse circo de horrores: ladrões que não mais se contentam com o furto, mas que torturam e chegam à iniquidade. Os ‘infames’ de agora parecem ostentar a infâmia de que nos falou Foucault como um modo bárbaro de subjetivação, como medida de pertencimento, querem deixar uma marca, fazer ver e sentir a sua potência e malignidade, na desvalorização extrema da vida. Animalizados pelas drogas, vitimizados pelo discurso da exclusão que parece justificar tudo, querem fazer da infâmia, fama. Matam porque o sucesso do outro acusa a própria precariedade, matam para se reafirmar no grupo, porque estão certos da impunidade e não reconhecem quaisquer autoridades, desprovidos de sentido humano. De uma banalidade atroz
Vanessa Maranha
Psicóloga, jornalista, escritora
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.