Os Pássaros (e as bicadas)


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Tudo o que irrompe trazendo em seu bojo o novo pode assustar e, no momento seguinte, desencadear reações negativas. Porque nós, seres humanos, adoramos nossas zonas de conforto. Não gostamos do esforço necessário às transformações, embora a maioria enalteça o novo como necessidade ao avanço. Na prática a teoria é outra e os jeitos de se contrapor variam muito. Podem chegar como vendavais uivantes ou silêncios glaciais. Esta última foi a forma escolhida pelos críticos que em 1963 assistiram em Cannes à première de Os Pássaros, de Alfred Hitchcock.

Eles não entenderam a forma econômica do cineasta, embora ele já tivesse se tornado conhecido pela concisão. Não assimilaram a quase ausência de trilha sonora no rol de filmes que a usavam em excesso. Muito menos compreenderam em toda sua potência criativa a elisão de duas palavrinhas sempre presentes na tela, desde os tempos de Melliès, colocadas antes dos créditos: The End. E foi sobretudo ao se abster desta tradição cinematográfica, deixando ainda o final em aberto sem sequer sugerir o destino dos personagens, que o diretor mais incomodou. Aquilo se mostrava muito diferente do usual, pensou o público, escreveu a crítica. Será que duraria?

Chegado em 2013 como um clássico sobre o qual sempre se pode voltar com novas leituras, o filme e seu diretor são homenageados pela Universal, que acaba de lançar bem cuidada edição em Blu-Ray, imagem e som perfeitos em alta definição. Além do próprio filme, o admirador de Hitchcock encontra os extras, onde se incluem trailer, teste a que foi submetida Tippi Hedren, final original excluído, comparação entre o storyboard e as cenas filmadas, pôster em tecido como os da época, e trecho em áudio de diálogo entre Hitchcock e Truffaut, retirado de famosa entrevista. Lindo presente para quem ama cinema.

Celebram-se assim com brilho e justiça os 50 anos de um filme que remonta à tradição do gênero suspense, no qual bebeu a britânica Daphne de Maurier, leitora de Guy de Maupassant e autora do conto homônimo, no qual se inspirou Hitchcock. Dame Daphne, abandonando o estilo romântico que a levara a celebrizar-se com o romance Rebeca, a mulher inesquecível, também transposto à tela por Hitchcock, tinha buscado na ficção científica seu assunto. Ela ergue um extraordinário relato com aves que se organizam e questionam o domínio do homem sobre a natureza, tese profeticamente ambientalista.

E aí vem o toque do gênio. Ao levar a história para a tela, o diretor a redimensionou com um discurso psicanalítico, também encetado em Psicose, protagonizado por edipiano que mata a mãe e assume seu lugar, e em Confissões de uma ladra, onde a personagem furta para compensar problema de ordem sexual que cena metafórica desvela. Mitch, em Os Pássaros, tem uma mãe dominadora que sutilmente interfere na sua relação com as mulheres, mantendo-o emocionalmente dependente.

Breve paráfrase. Melanie (Tippi Hedren) conhece Mitch (Rod Taylor) numa loja de animais em San Francisco. Brota entre ambos um clima. Ela o segue até Bodega Bay, levando no carro uma gaiola com casal de aves. Ainda no trajeto é bicada por gaivota no barco que atravessa a baía. Logo depois, ao chegar à casa onde o rapaz vive com a mãe, é novamente atacada por pássaros. A partir daí o trio mãe autoritária/filho submisso/nora indesejada passa a sofrer ataques cada vez mais frequentes e violentos de aves em profusão, a ponto de, em algumas cenas, terem de se engaiolar para não serem destruídos. É bela e ao mesmo tempo assustadora esta inversão da ordem natural, pelo menos sob ótica humana. Mas em termos cênicos, os momentos mais dramáticos não são os dos ataques, mas aqueles que os precedem, bem dentro do modelo de suspense, que aposta mais no prólogo que na própria situação limite.

No seu livro de ensaios, Cult Movies, de 1981, onde comenta cem filmes tornados clássicos, o jornalista Danny Peary chama a atenção para o fato de que Melanie, mesmo quando atacada, não grita. E informa que a atriz que a interpretou, Tippi Hedren (mãe de Melanie Griffith), teve de sofrer na pele, literalmente, a recusa às cantadas de Hitchcock. Tomado pela raiva, o diretor, para puni-la, substituiu por pássaros reais os artificiais, exigindo que a atriz se mantivesse em silêncio, para, segundo o próprio, “compor bem a personagem.”

Pois então, não poderia estar melhor contextualizada a frase de Clarice Lispector: “A realidade supera qualquer ficção.” Aos ataques dos pássaros, intra corpus do filme, correlacionavam-se outros ataques, humanos, demasiadamente humanos, em off.

Filme lançado há pouco, Hitchcock, assinado por Sacha Gervasi, com Anthony Hopkins, deixa entrever essas facetas obscuras do cineasta, mas elege como tema maior a grande energia do artista que se reinventou magistralmente em vários momentos de sua vida.

O cineasta

Alfred Hitchcock.

“Ter estilo é plagiar-se a si mesmo.” Com este aforismo, o diretor (1899-1980) revelava ter consciência de seu processo criativo, caracterizado por reproduzir recursos a cada filmagem. Replicar visões de mundo em roupagens diferentes foi o que lhe garantiu lugar de destaque na história do cinema. Seus traços essenciais no gênero que o celebrizou, o suspense, estão em todos os filmes: mistério, culpa, desejo, medo, crueldade, certa falta de nexos de causalidade.

De sua autoria é também a frase: “Num filme existe algo mais importante que a lógica: a imaginação; se a ideia é boa, jogue a lógica pela janela.” Foi esse talento para mexer com o imaginário do espectador que o consagrou como um dos maiores diretores de cinema do século XX. Nascido num subúrbio de Londres, teve educação rígida no lar e no colégio jesuíta onde se alfabetizou. Começou a trabalhar ainda criança, fazendo letreiros, e ao se mudar para os EUA, conseguiu mostrar seu talento ao grande David Selznick, que reconheceu seus méritos e lhe abriu as portas dos grandes estúdios norte-americanos.

Sua filmografia exibe dezenas de títulos. Três deles ocupam os primeiros lugares na conceituada The Screen Directory e foram listados pelo Instituto Americano de Cinema entre os cem melhores de todos os tempos: Vertigo ( Um corpo que cai), Psicose e Os Pássaros. Vertigo também foi mal compreendido à sua época e reabilitado anos depois, influenciando grandes diretores. (SM)

LIVRO

Título: Os Pássaros-50º aniversário
Direção: Alfred Hitchcock
Elenco: Tippi Hedren, Rod Taylor, Jessica Tandy, Suzanne Pleshette

Sonia Machiavelli, professora, jornalista, escritora

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