A bruma da noite caía, engolia a mistura da silhueta do homem esguio que eras tu, carregando pela coleira de couro cravejada de rebites a sua tarântula de estimação.
Relâmpagos, trovões.
Se contentava com o hálito cadavérico da noite ao ver alguns pares de boas pernas eventualmente cruzando apressadas ruas à frente. Mas pensava, eu bem sei em quem... Ah! Homem, nosso espírito é mesmo uma grande piada! Uma vergonha! Nosso amor pequeno e egoísta é de dar pena!
A moreninha estava em algum outro canto; levava dentro uma festa! Teus gestos calmos não transpareciam o turbilhão dentro. Seu peito quente... Uma zabumba! Uma folia de reis! Uma quermesse e um carnaval! Toda a magia, das cores, sons cheiros e sabores! Seus olhos marejavam a felicidade da segurança de um amor que, sem que ela soubesse ainda, não apareceria, nunca mais.
Um precipício sublime e suas injúrias... Não te envergonhas, pelo atraso de uma vida inteira?
Emerge a densidade da noite e te evaporas no negro.
Ela come seu pé-de-moleque em soluços... Sente nuances de canela, lembra que é afrodisíaco e chora mais sentida ainda. Tenta brincar de kamikaze correndo na linha hipnótica do meio-fio, seu vestido esvoaçante na cor esperança crispa com o vento em faíscas fugazes. Não lembra nem esquece a cor do amor.
Relâmpagos, trovões e densa chuva.
Débora Menegoti, universitária
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