O grito da buzina, o ruído de pneu fritando-se no asfalto, o cheiro forte de borracha queimada chegam pouco antes dos palavrões, antes dos xingamentos. Depois da sequência de ofensas à minha mãe, à minha avó e a parentes de grau mais afastado, o motorista se acalma e diz apenas:
- Tá maluco, velho? Presta atenção no sinal... Não tá vendo que tava fechado ? Filho da mãe...
O motorista apressado se vai, um pedestre se aproxima, tenta ser solidário.
- O senhor está bem?
- Estou, estou... Não precisava era de tanto palavrão...
- O senhor precisa tomar mais cuidado, quando for atravessar a rua. Precisa olhar para os dois lados antes de atravessar.
- Eu sei, eu sei. Eu olhei para os dois lados, mas não vi o carro. Eu não enxergo.
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
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