‘Sem chão’


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Tenho observado uma verdadeira maratona entre professores dos quintos anos para ensinar ‘Cartas de Leitor’, almejando êxito na redação do próximo Saresp. Costumo dizer que produzir cartas do tipo deveria ser desafio permanente, pois estimula interpretação, formação de opinião e capacidade de argumentação. Aliás, mais que isso. O professor é o aprendiz mais beneficiado.

Baseio-me em experiência vivida há alguns anos. Ao participar do Jornal Escola, do GCN, trabalhei, em sala de aula, diversos gêneros textuais presentes num jornal. Em certo momento, propus a meus alunos que indicassem uma reportagem que pudesse ser discutida para elaborar uma ‘carta de leitor’. Elegeram matéria sobre um usuário de drogas que agrediu a própria mãe na tentativa de extorquir-lhe dinheiro, sendo necessária a intervenção de outro familiar e da polícia.

Estranhei a escolha — tinham opções de reportagens interessantes e contextualizadas com temas estudados —, mas não interferi. Na prática do exercício, as crianças, simplesmente, começaram a relatar suas vivências, comparando-as à situação descrita na reportagem: irmão adolescente usando drogas, tio usuário agredindo avó, pai alcoólatra agredindo mãe, e assim por diante.

Entendi, finalmente, a razão da escolha que fizeram. Fiquei, literalmente, ‘sem chão’ (com os ‘meus pequenos’ não podia estar acontecendo coisas do tipo; docência e afetividade caminham de mãos dadas) e usei todas as minhas forças para não desabar na frente deles.

A sensação foi como se descobrisse que até aquele momento (segundo semestre letivo), eu estivesse olhando para a turma, diariamente, e por meses, através de uma parede de vidro muito embaçada. E essa parede ruiu...

Senti necessidade imperiosa de desenvolver melhor o saber ouvir, o ler entrelinhas e resolvi isso buscando um curso de psicopedagogia, que me ajudou a ajudar meus alunos a superar dificuldades de aprendizagem.


Vanda Marques
Professora, Coordenadora Pedagógica da EMEB ‘Mittermair Alves Barbosa’, no Luiza II

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