Nosso jardim comestível


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Em um de seus trabalhos, o professor Valdely Kinupp pesquisou, em Porto Alegre, 1.500 espécies, das quais 311 possuem potencial alimentício
Em um de seus trabalhos, o professor Valdely Kinupp pesquisou, em Porto Alegre, 1.500 espécies, das quais 311 possuem potencial alimentício

Já vai longe o tempo em que, sozinhos ou num pequeno grupo familiar, numa pequena extensão de terra, conseguíamos nos sustentar, ainda que parcialmente. Em verdade, rapidamente deixamos de olhar para nossos jardins como possibilidade alimentar, não se vê mais pés de couve, cebolinhas, tomates e chuchus como antes. Nem os rústicos pés de buchas - hoje as compramos, sem sementes, empacotadas, amaciadas...

Crescemos cada vez mais dependentes de um enorme sistema que, na pressa, esqueceu- se de construir base sólida - e quanto tempo durará é uma incógnita. Por isso, qualquer cabeça pensando em algo que possa ser uma alternativa, será válida.

E a tese de doutorado do professor e pesquisador Valdely Kinupp fez a diferença. É dele a denominação PANC (Plantas Comestíveis Não Convencionais). É uma catalogação em aberto que visa nos apresentar novas opções do que comer. O professor desafiou a lógica de nosso modelo de alimentação: 52% de nossa alimentação é de orientação euroasiática. Estamos sentados numa pretensa biodiversidade que gera pouca diversidade; é pouco explorada.

Exemplos: a grande descoberta do professor foi sobre a bertalha, uma planta perene, até então não comestível. Ela nos oferece as folhas e umas batatinhas que ficam na terra. Descobriu-se que possui uma substância que protege a cavidade gástrica a tal ponto que estrangeiros propuseram a compra de duas toneladas dela, mas ninguém a cultiva comercialmente. Outro, o juá nativo: fruto com mais licopeno que o tomate e não requer tantos cuidados.

Mais um: o pesquisador divulgou um tipo de feijão da Amazônia, o feijão de Asa. Dele tudo se aproveita e, quando verde, tem estrutura e gosto parecidos com a ervilha torta, asiática e cara.

Enfim, para se ter uma ideia, para o doutorado, o professor pesquisou 1.500 espécies, das quais 311 têm potencial alimentício. E, pasmem, tudo isso apenas em Porto Alegre. Há um bom livro sobre a utilização culinária dessas e outras plantas e flores comestíveis não convencionais, chama-se: Jardim Comestível. Pode-se achar outros livros através do site: plantarum.org.br.

Pode-se perguntar: qual o sentido disso se é mais fácil comprar alface, rúcula higienizadas? Há um sentido, o cultivo dessas hortaliças requer a utilização sistemática de agrotóxicos e seu manejo, um gasto enorme de água. Ao contrário, as plantas pesquisadas são adaptadas naturalmente ao nosso ecossistema, muitas consideradas “daninhas”, e têm, todas, uma capacidade incrível de nascer e crescer, sem que precisemos nos entender com elas.

DICA DA SEMANA

Vinagre de framboesa
Todo chef de cozinha que se preze tem um segredinho para encorpar seus molhos de carne e a acidez é fundamental para dar aquela graça ao gosto, senão fica meio tipo papinha. Muita gente se esqueceu da utilização do vinagre e o discrimina. Mas não é bem assim. Ter um desses de ótima qualidade pode fazer maravilhas pela comida.

Caso você tenha um pé de framboesas ou esteja disposta a pagar por elas há uma excelente receita, que lhe renderá um vinagre de qualidade.

Ponha ½ quilo de framboesas numa tigela e despeje por cima 1 litro de vinagre de vinho branco. É fundamental que seja de vinho, não servem os de álcool, ou arroz. Tampe e deixe em infusão por 24 horas. Depois repita a operação. No dia seguinte pegue mais framboesas, suficientes para encher ¼ da garrafa e coloque o líquido. Tampe bem e deixe descansar por um mês. Depois é só usar onde desejar, sal ou doce.
 

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