Pragas e turbulências


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No sonho, o telefone insistia, insistia, e eu pensava:

- Não vou atender. Esse credor dos diabos que ligue mais tarde.

O som intermitente persistiu, prevaleceu. Acordei-me mais ou menos, a realidade abriu um olho. Descobri que o barulho infernal não vinha do telefone, mas do despertador. Apertei a tecla do relógio, houve alívio momentâneo. Em seguida, contrariado, divorciei-me da cama. Encarei o relógio, os ponteiros me confirmaram que passava já das três horas. O compromisso empurrou-me deseducadamente, informando que eu deveria viajar.

Acendi a luz do quarto, acordei-me de todo, lembrei-me de que o amigo Bento me levaria a Ribeirão Preto. Lembrei-me de que acordáramos o seguinte: quem despertasse primeiro, ligaria para o outro. Assim, antes de lavar o rosto, fui à sala, a fim de telefonar para ele Bento.

Dentre as minhas tantas insuficiências, sobressai a visual. Por isso, ao anotar algum nome ou número, faço-o em letras enormes, em folha isolada, a fim de serem evitados erros e contratempos. Assim, apanhei o papel sulfite onde anotara o telefone do meu amigo e, cuidadosamente, com calma, fui olhando cada número e apertando a tecla correspondente no aparelho. Esperei pouco e ouvi voz sonolenta:

- Alô.

- Já estou de pé.

Pareceu-me ouvir ligeira risada.

Confirmei:

- Bento, já estou de pé.

- O senhor quer falar com quem?

- Não é da casa do Bento?

- Não é não senhor.

- Perdão... mil perdões... eu disquei errado, desculpe.

Desliguei , saí procurando minha lupa. Munido do indispensável apetrecho, voltei à sala, apertei novamente as teclas, com cuidado redobrado. Aliviado, reconheci a voz do Bento.

- Alô.

- É o Bento?

- E você queria falar com quem? Se queria falar com o Papa, o telefone do Vaticano é outro. Daqui a meia hora eu passo aí.

Não achei graça na brincadeira do amigo, nem nas piadinhas que ele contou durante a viagem até o aeroporto, em Ribeirão Preto.

Três horas depois de acordado, no bojo de um avião, estava suando de medo.E foi nessa hora que o sistema de som espalhou voz masculina por todos os cantos da aeronave. O comandante comunicava que o serviço de bordo estava suspenso porque enfrentaríamos pequena turbulência na viagem. Recomendava que todos os passageiros se mantivessem sentados, com a poltrona em posição vertical, com os cintos apertados, enquanto as luzes de alerta permanecessem acesas.

Sou lerdo, mas não sou burro. Deduzi que, se a turbulência fosse insignificante, ninguém precisaria parar de comer, nem ficar amarrado feito boi no tronco.

E, de fato, não demorou mais que cinco minutos, e o avião virou corcel, corcoveando abruptamente.

Eu, que geralmente tremo diante de fotografia de avião, quase morri. A cada movimento um pouco mais brusco, eu tinha certeza de que cairíamos, de que nos espatifaríamos lá embaixo das nuvens. E, no desespero, não me contive, externei em voz alta:

- É praga... é praga do homem que acordei...

O passageiro a meu lado olhou-me com o rabo do olho, e o seu olhar revelava o espanto de quem mirasse um marciano, ou um homem louco.

Milagrosamente, depois de algumas orações e muitos solavancos, aterrissamos no Aeroporto da Pampulha, em Belo Horizonte. Eu tentava recompor-me, ao tempo em que percebia que alguns passageiros me olhavam furtivamente. Eu só pensava uma coisa:

- São umas bestas, não sabem de nada. Eu sei. Sei que foi praga do homem que eu acordei de madrugada. Foi praga, sei que foi...


Luiz Cruz de Oliveira,
professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras

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