Movido por um corporativismo ignóbil e por um fisiologismo perverso, o legislativo brasileiro há muito deixou de ser encarado como um instituto sério e honesto, estando entre os menos avaliados pelo cidadão brasileiro. A cada dia que passa, as ações exaradas das diversas Câmaras Legislativas brasileiras, em todos os seus níveis (federal, estadual e municipal), dão razão àqueles que dizem não confiar nos nossos políticos. Na maioria das vezes, o eleitor é solenemente ignorado em nome de interesses pessoais e obscuros. Agora, a Câmara dos Deputados conseguiu dar um tapa na cara da honestidade, da legalidade e da moralidade.
A noite da vergonha protagonizada pelos deputados federais na quarta-feira foi o que de mais abjeto o Legislativo brasileiro produziu ao longo de sua história. Conseguiu, de forma desprezível, eclipsar qualquer outro fato, positivo ou não, que o mundo produziu no mesmo dia. Externou, aos 200 milhões de habitantes do nosso Brasil, a forma mesquinha como se faz política nas terras tupiniquins. Ao manter o mandato do deputado Natan Donadon (sem partido), condenado a mais de 13 anos de cadeia e que cumpre pena de prisão há dois meses, a Câmara causou uma verdadeira revolta em todos aqueles que contavam com a cassação pura e simples de um criminoso.
O fato se consumou porque apenas 233 dos 513 deputados votaram a favor da punição ao parlamentar. Faltaram 24 votos. O que chamou a atenção, além dos 131 votos contra e 41 abstenções, foram os 104 deputados que não votaram. Entre os faltosos há nomes de grandes interessados em sua própria situação. João Paulo Cunha (PT), Pedro Henry (PP) e Valdemar da Costa Neto (PR), por exemplo, foram condenados por envolvimento com o Mensalão e se omitiram, na esperança de que suas situações sejam revolvidas da mesma forma. E vários outros nomes, envolvidos em processos dos mais variados tipos, também deixaram de comparecer. Ou seja: se omitiram e colaboraram para a decisão vergonhosa.
Há muito se cobra o fim do voto secreto nas decisões do Congresso Nacional, pois assim se poderia aferir o placar com precisão e identificar quem realmente ficou a favor, dando carta branca para a conduta criminosa de políticos, principalmente para com o dinheiro do contribuinte brasileiro. Hoje o Legislativo brasileiro vive uma condição única no mundo: manteve o mandato de um deputado que está na cadeia por desvio de dinheiro. Somente regimes de exceção — que hoje estão cada vez mais escassos — poderiam produzir situação semelhante.
Depois não venham senadores, deputados e vereadores atirarem nas costas da imprensa as razões da ampla rejeição à classe política. A imprensa não absolve criminosos, não defende corruptos e não pactua com ilegalidades ou imoralidades. A imprensa informa, pontua, critica e procura fazer chegar ao seu leitor o relato mais fiel do que acontece. Os próprios políticos é que estão conseguindo revoltar e envergonhar o eleitor, em razão de decisões como a desta última quarta-feira.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.