A fuga para o Brasil do senador boliviano Roger Pinto Molina ainda causa grande celeuma e vem suscitando discussões, a maioria a respeito da participação do encarregado de negócios da Embaixada brasileira em La Paz, Eduardo Saboia. A maioria das manifestações, inclusive no Congresso Nacional, exalta a coragem do diplomata ao empreender uma viagem de carro de 22 horas para trazer ao Brasil o senador opositor do presidente Evo Morales, da Bolívia. Roger Pinto Molina estava abrigado na embaixada há mais de um ano e, segundo Saboia, apresentava um estado de depressão que vinha se agravando e poderia levá-lo ao suicídio.
Enquanto se fala em ‘ousadia e coragem’ do diplomata em colocar em ação seu plano, já que o governo boliviano negava-se a conceder a Molina o salvo-conduto para deixar aquele país, há mais questões a serem consideradas e muitos estão passando ao largo delas. A princípio, deve-se ressaltar que acordos internacionais regem as relações diplomáticas entre as diversas nações do mundo e exigem uma série de normas que devem ser seguidas em caso de asilo político.
Embora tenha tido as melhores intenções, Eduardo Saboia acabou criando um incidente internacional (além de provocar a demissão do ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota). Pior que isso: deixa o governo sem explicações diante do imbroglio, já que o próprio diplomata diz que ninguém sabia de seu plano. Cria-se um precedente perigoso que pode causar problemas para as representações brasileiras no mundo todo. As regras existem e precisam ser seguidas, com o perigo de se criar um ‘balaio de gatos’ sem tamanho.
Outro ponto que precisa ser destacado é que o episódio mostra a forma como tem agido a diplomacia brasileira nos últimos anos. Por causa da ideologia que vem tomando conta do Itamaraty, as negociações com o governo boliviano vinha evoluindo ‘a passos de tartaruga’. Este assunto já deveria ter sido resolvido, mas como afirma Eduardo Saboia, estava sendo levado em ‘banho-maria’. Ou seja, a situação ficaria mais complicada, podendo prolongar por prazo indefinido o confinamento de Pinto Molina na representação diplomática brasileira. Caso houvesse seu suicídio dentro da embaixada, como é que o Brasil iria explicar?
Agora os caminhos estão mais ou menos traçados: enquanto Roger Pinto Molina terá que entrar com novo pedido de asilo político -- e o processo pode se arrastar por muito tempo --, Eduardo Saboia será investigado pela comissão do Itamaraty formada ontem com esta finalidade. Ele dificilmente seria demitido, mas como a presidente Dilma Rousseff vem deixando claro que pretende usar o caso como exemplo, não se pode conceber o desfecho deste episódio. O que existe de concreto é que a diplomacia brasileira precisa mudar a sua atuação, sob o risco de ver outros integrantes agirem por conta própria ao não concordar com a condução da política externa brasileira.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.