Discussão que não contribui


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Nas últimas semanas, a discussão entre governo e classe médica a respeito da contratação de médicos estrangeiros para atuar no Brasil, atendendo regiões carentes de profissionais, extrapolou o limite do bom senso. Neste período, erros e exageros de ambas as partes colocou para escanteio as reais necessidades do País quando se fala em saúde pública. Não é de hoje que o setor tornou-se uma das grandes mazelas brasileiras, sendo inclusive um dos estopins das manifestações populares que sacudiram grandes e pequenas cidades no mês de junho. Que o Brasil enfrenta sérias dificuldades para prover serviços de saúde pelo menos satisfatórios a grande parte de sua população é fato. Também é fato que há regiões extremamente carentes que não contam com médico ou um simples ambulatório para atender os menos abastados.

Com isso, multiplicam-se os problemas de saúde que ainda acometem populações remotas e que deveriam estar erradicados há muito tempo. Mas não: desnutrição e falta de infraestrutura e de saneamento ainda causam perdas de vidas a cada ano, principalmente pela inexistência de profissionais capazes de examinar, diagnosticar e tratar os mais carentes. Por isso, não se entende a grande gritaria que se faz em torno do programa Mais Médicos, que busca atender pontos remotamente desprovidos, inclusive na periferia das grandes cidades.

Governo e associações de médicos tornaram o assunto um grande cavalo de batalha. Enquanto o Ministério da Saúde insiste em trazer pelo menos 4 mil médicos cubanos para preencher as vagas que não foram supridas por profissionais brasileiros, os conselhos de Medicina buscam, na Justiça, barrar a atuação de médicos estrangeiros por aqui. Quem analisa o fato com a distância necessária é obrigado a dar razão aos dois lados e também, de forma paradoxal, desaprovar o que vem sendo feito -- e dito -- em torno do programa.

Desde o início, a intenção do governo era fechar um contrato com o combalido governo da Cuba comunista, que já fez acordos semelhantes com países alinhados com filosofia da ilha comandada há décadas pelos irmãos Castro. Ao não exigir que os contratados se submetam a um exame de proficiência, o Ministério da Saúde erra, pois não há garantias da qualidade dos médicos que aqui atuarão. Muitas vezes eles terão que provar amplo conhecimento em doenças típicas dos rincões brasileiros. Já as associações de médicos, que acertam neste ponto erram ao não reconhecer que não há no País médicos em número suficiente com disposição de trabalhar nestes locais.

Enquanto ao Ministério da Saúde cobra-se que haja uma avaliação, dos Conselhos de Medicina espera-se que trabalhem em consonância com o programa, no sentido de detectar falhas e propor soluções. O que o bom senso não admite que muitos brasileiros continuem sujeitos a longos deslocamentos para atendimento e, no fim, receberem o diagnóstico de virose quando há algo mais grave prejudicando sua saúde. Os dois lados precisam abandonar esta queda de braço improdutiva e partir para resolver, de forma definitiva, o desarranjo da saúde pública brasileira.

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