Há sete anos, Augusta Maria de Rezende Silva mantinha uma rotina comum, embora dores na coluna a incomodassem às vezes. Mãe de dois filhos, a coladeira cuidava dos afazeres de casa, da família e trabalhava em uma fábrica de solados sem imaginar que, em uma tarde de 2006, enquanto cumpria expediente, as dores se agravariam a ponto de levá-la ao Pronto Socorro. Menos ainda que uma cirurgia, que serviria para aliviá-la, terminaria com a perfuração de duas de suas vértebras restringindo sua vida às paredes de casa. “Os médicos descobriram que eu tinha hérnias na coluna. Fiz dois anos de fisioterapia mas vivia no hospital. Em 2010, durante uma das internações na Santa Casa, fui atendida por uma doutora que disse que iria me operar”, disse Augusta.
A coladeira se aposentou em 2008 por não ter condições de trabalhar por conta dos problemas de saúde. “Cansada de esperar e vivendo dopada por remédios, mesmo sem conhecer a médica, aceitei que ela me operasse. Quando acordei, ela disse: ‘Houve um acidente. Duas vértebras foram perfuradas, vazou o liquor mas eu consegui estancar. Você também não tinha apenas duas hérnias, mas cinco. Retirei três e ficaram duas.’ Eu então perguntei se o acidente não traria nenhum problema e ela me garantiu que não, que eu ficaria bem. Tive alta em dois dias.”
A explicação dada, segundo Augusta, pela médica sobre a cirurgia não a convenceu. A paciente desconfia do fato de apenas terem sido retiradas as hérnias “invisíveis”, que, “nunca apareceram nos exames feitos na coluna”.
Agravou
A partir da operação, as dores que se restringiam à coluna estenderam-se para perna e pé, gerando ainda formigamentos. Assustada, Augusta retornou à Santa Casa e ouviu da mesma médica que a operou que os sintomas eram normais e que ela deveria passar por fisioterapia. De acordo com a paciente, durante as sessões, o quadro não apresentou melhoras e as dores se intensificaram. A aposentada foi encaminhada ao NGA onde consultou-se com um neurologista e descobriu, através de uma ressonância, que as hérnias continuavam no mesmo lugar, mas com complicações por terem atingido fibras nervosas e se prendido à cicatriz, além de estar com as vértebras desidratadas.
“Desde março de 2012 que tenho encaminhamento para me tratar em Ribeirão Preto e não me mandam. Há um ano, a Secretaria de Saúde de Franca me disse que 70 pessoas estavam à minha frente. Da última vez, eram 50, ou seja: em um prazo de um ano, foram só 20 pessoas. Por quantos anos terei que sentir tanta dor?”, disse, chorando.Embora tenha sido orientada por diversas pessoas a procurar seus direitos perante a Justiça, Augusta diz que não pretende fazê-lo. “Não vou processar ninguém, eu só quero ficar bem.”
O Comércio entrou em contato com a médica responsável pela cirurgia de Augusta Rezende e com a Santa Casa de Franca, onde o procedimento foi realizado. A especialista afirmou, por telefone, que prefere não comentar publicamente o assunto e que o ideal é que fosse procurada pela própria paciente para uma conversa. Já o hospital alegou que não comentaria o caso por “sigilo de prontuário”.
O Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) de Franca respondeu, via e-mail, que nenhuma denúncia formal sobre a médica foi realizada e que só se manifestaria caso fosse acionado pela paciente ou após a publicação da reportagem pelo jornal.
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