Através de uma mulher notável, encontrei outra formidável. Muito embora ela tenha vivido entre os anos de 1913 e 1992, me foi possível sentir sua presença pela fala delicada, precisa e com um respeito às palavras que hoje em dia não se vê mais. Explico: estamos superlativos e não separamos mais o bom, do ótimo, do excelente. Usamos com frequência adjetivos que, nem de longe, refletem a verdade dos substantivos. Chegamos ao ponto de disparar por aí o é: “muito perfeito” para coisas banais - daí que ficamos sem palavras, literalmente.
Comecei com Nina Horta com seu Não é sopa, o livro tem boas receitas, algumas situações engraçadas e poesia. Em uma de suas crônicas trata de outra escritora de comida, uma das grandes: Elizabeth David.
A paixão de Elizabeth por comida começou de forma enviesada, meio sem querer. Estudante da Sorbonne, em Paris, Elizabeth, inglesa, se instalou numa casa de classe média parisiense. E foi lá, dia após dia, que ela percebe a importância que pode haver dentro do pequeno perímetro de um prato. Nessa casa, Elizabeth encontrou comida e conversas sobre o que comiam. À época lhe pareceu um exagero.
Mas o tempo é ótimo filtro e deixou na mocinha uma inquietação que a sufocou: não era possível aceitar que seus compatriotas ingleses se alimentassem tão mal e tão sem imaginação. Então começou a apresentar ao inglês as delícias da comida mediterrânea, francesa e italiana. Insistiu na utilização de alguns ingredientes que, na visão dela, faziam sempre um bom prato: azeite, azeitonas, queijos, pimentões, abobrinha, berinjelas e salames. Escreveu diversos livros, montou uma loja de utensílios domésticos e se imortalizou. Seu livro sobre a cozinha regional francesa é um excelente compendio sobre a comida francesa do dia a dia, que ela definiu como: “equilibrada, elaborada com esmero e habilidade, com o devido apreço pela qualidade dos materiais, mas sem extravagância ou pretensão”.
Elizabeth morreu dormindo em sua casa. Não sei bem, mas essa informação parece ter alguma relevância sobre a felicidade da pessoa. Meu caso de admiração com ela é recente, mas já tenho um pequeno tesouro: achei, num sebo carioca, o livro dela sobre a culinária regional francesa. As livrarias o têm em catálogo, mas na hora de comprar: indisponível.
Tem na orelha do meu livro uma gravura que a mostra, recostada a um armário de cozinha, bebericando alguma coisa, um prato à sua frente e uma fisionomia que vai além, muito além do seu tempo.
DICA DA SEMANA
Fritada
O termo vem do italiano: frittate que evoca delícias quentes. Pode ser descrita como uma omelete aberta, que deverá ser firme e consistente. Pode-se fazê-la na frigideira ou assada.
É seguramente um prato rápido, delicioso, que agrada a todos. E seu acompanhamento perfeito é a saladinha verde.
Tenho uma excelente receita de fritada suficiente para uma assadeira de 20cm: murche um talo de alho poró no azeite e reserve. Cozinhe aspargos em água salgada por dois minutos. Queijo feta, 100gr. Bata 6 ovos e junte tudo. Coloque numa forma untada, então cubra com tomates cerejas maduros cortados ao meio. Salpique parmesão, cerca de 4 colheres. Ela estará pronta quando estiver firme no centro. Sirva quente.
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