Não acredito em crimes perfeitos”


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O perito Edmilson Martins é especialista em insetos e diz que as moscas ajudam a desvendar a autoria e detalhes dos crimes
O perito Edmilson Martins é especialista em insetos e diz que as moscas ajudam a desvendar a autoria e detalhes dos crimes

Qual a importância de um mosquito para o esclarecimento de um crime? Se você respondeu nenhuma, certamente, nunca conversou com Edmilson Martins. Ex-tenente do Exército, onde comandou o Pelotão de Investigação Criminal, é um dos mais respeitados peritos do Estado. Químico industrial com mestrado em biologia geral e especialista em entomologia forense, ciência que estuda os insetos, Edmilson trabalha no Instituto de Criminalística de Franca há dez anos e tem nas moscas uma arma para auxiliar na elucidação de casos. Três de seus laudos periciais, elaborados com a “participação” dos insetos, integraram uma pesquisa apresentada em congresso realizado em Nevada, nos Estados Unidos.

Os insetos são apenas um detalhe. Peritos contam com modernos equipamentos e técnicas especiais para averiguar ocorrências diversas, como homicídios, crimes ambientais, acidentes de trânsito e de trabalho, perturbação de sossego e falsificação de documentos. Em média, são realizados dez mil laudos por ano em Franca. Conheça um pouco da história desse profissional.

Como é a rotina de um perito?
Há duas formas de se fazer o trabalho pericial: existe o perito que faz o serviço investigativo e o que faz a perícia descritiva. Ambas têm a mesma importância porque, no final, o que a autoridade policial e o Judiciário precisam é de um laudo que reproduza com fidedignidade aquilo que o perito encontrou no local do crime. É o ver e repetir que faz parte do nosso lema. O perito descritivo se limita a transcrever o laudo e reproduzir o que viu. Já o investigativo vai um pouco mais além: ele procura vestígios que vão colaborar com a investigação. Ele não precisa do autor presente. Muitas vezes, não precisa nem da vítima. Só precisa de um ambiente, se possível, preservado.

Qual é a primeira coisa que um perito faz quando chega na cena de um crime?
Existem duas técnicas: Há o exame excêntrico, que vem do ponto principal do corpo de delito para fora e o concêntrico, que o perito parte de fora do ambiente até o local em que está o cadáver. Eu gosto de utilizar o método concêntrico. Vou de fora, ‘varrendo’ todo o ambiente externo até chegar ao corpo. Preliminarmente, procuro me inteirar do fato. Quando chego ao corpo, inicio o trabalho excêntrico e vou voltando para ver se alguma coisa importante foi deixada para trás. Os informes iniciais não podem nortear toda a conduta do perito, pois alguns são atravessados. Recentemente em Rifaina (a mãe e o filho foram encontrados mortos em casa na segunda-feira, 12 de agosto), uma informação distorcida passada por uma senhora criou um desentendimento entre aquilo que a técnica já havia estabelecido, que era o tempo de morte. A mulher me informou que o menino foi visto no sábado de manhã empinando pipa. Eu tinha a convicção que ele tinha morrido antes, o que foi confirmado após a prisão do autor (o marido e padrasto das vítimas confessou o duplo homicídio, ocorrido no dia 9).

Realmente não existe crime perfeito? Todo criminoso deixa algum vestígio?
Não acredito em crime perfeito. Acho que tem investigação mal conduzida. Isto ocorre por falta de empenho dos profissionais envolvidos ou porque a gama de serviços é muito grande. Toda cena de crime deixa vestígios, não só para a perícia, mas também para a investigação. Se alguém morreu de uma forma dolosa, alguém teve interesse naquele resultado. Aí já deixou um vestígio: quem tinha interesse na morte daquela pessoa? Dentro da esfera do trabalho investigativo, sempre temos um ponto de partida. Alguém em algum momento deixou rastros.

Como foi a coleta de dado do duplo homicídio em Rifaina?
No caso de Rifaina, por exemplo, como sou entomologista, a minha primeira preocupação era saber se haviam larvas decompondo aquele cadáver. Não havia, apesar de fazer quatro dias da morte. As moscas começam a colocar os ovos logo em seguida à morte das pessoas. Tendo acesso ao cadáver, os insetos podem fazer isto em cinco minutos, meia hora. A quilômetros, a mosca é capaz de farejar um substrato, e o cadáver humano é um deles. Ela chega rapidamente e coloca o seu ovo. Nos corpos encontrados em Rifaina, haviam ovos, que eclodem em, no máximo, cinco, seis horas. Não havia larvas. Com isto, concluímos que o ambiente ficou fechado desde o dia do crime até o dia em que foi feito o exame, na segunda-feira. A natureza vai nos dando as informações. Após as mortes, ninguém mais entrou na casa. Estas coisas não escapam ao perito e acabam convergindo para o principal suspeito, pois ele havia sido visto pela última vez na sexta-feira, quando os crimes aconteceram. Se necessário, coleto larvas e crio os insetos para identificar as moscas. Quando faço isto, calculo o tempo que é estimado entre a colocação do ovo até a hora que emerge na forma de mosca adulta. A literatura dá o tempo delas também. As moscas mudam a linha de investigação em relação ao tempo de morte e podem ser um indicativo para existência de lesões no corpo. Isso porque normalmente as moscas preferem colocar seus ovos perto de orifícios, como olhos, boca e nariz. Quando se aglomeram em outro ponto, como na nuca, por exemplo, é sinal de que ocorreu alguma lesão no local.

O senhor poderia nos citar casos em que sua perícia foi decisiva para o esclarecimento do crime?
Tenho cinco laudos em que, pela impressão digital, confirmamos a autoria do suspeito de furtos. Lógico que houve um trabalho em conjunto com a Polícia Civil, mas a perícia foi decisiva. Um caso de grande repercussão ocorreu na época em que estavam ocorrendo os estupros de estudantes da Unesp de Franca. Usando uma uma luz ultravioleconsegui encontrar espermas de uma outra pessoa que, até então, não era a principal suspeita. O exame confirmou que a maior parte dos estupros havia sido cometida pelo segundo suspeito (conhecido como Homem Aranha, o tarado confessou ter invadido 29 locais diferentes e foi condenado a 54 anos de cadeia. Sua descoberta fez com que a sentença imposta ao primeiro suspeito fosse reduzida, já que teve a participação comprovada em apenas um estupro). Também trabalhei ao lado de outros colegas na apuração do incêndio que consumiu a antiga fábrica Soberano, no ano passado. Fizemos uma varredura e constatamos que ocorreu um curto-circuito. Após várias pesquisas e visitas ao fabricante da máquina onde o problema se originou e também a empresas especializadas, conseguimos estabelecer as causas, que envolveram responsabilidade na manutenção. O equipamento funcionava há 20 anos e a peça que deu problema nunca havia passado por manutenção.

O senhor acredita que o garoto Marcelo Pesseguine matou os pais, que eram policiais, e mais duas parentes em São Paulo, como afirma a polícia?
Posso dar uma opinião particular de uma pessoa que acompanhou o noticiário à distância. O caso foi esclarecido, nem pela perícia, foi pela própria investigação. As filmagens do garoto dirigindo o carro da mãe e depoimentos de testemunhas não deixam dúvidas em relação à autoria. Acho pouco provável que a conclusão seja alterada. O jovem tinha histórico de doença, falava com os amigos de suas intenções de montar um grupo de extermínio e de matar os pais, além de ter uma relação muito íntima com jogos. Acredito que ele tenha assumido um personagem do jogo, mas o jogo era real, não teve game over, não voltou novamente para a fase um. Quando ele chegou em casa, encontrou os pais mortos, não tinha almoço, não tinha nada. Foi quando viu o tamanho da bobagem que fez.

Quais as dicas que o senhor daria para as pessoas que pensam em ingressar na perícia?
Sou um entusiasmado, um apaixonado pela perícia. Temos independência. Ninguém interfere no trabalho do perito. É uma carreira, dentro do serviço público, brilhante para quem tem formação acadêmica, principalmente na área de biológicas e exatas. Quem puder abraçar esta carreira, não vai se decepcionar. O que se faz no seriado CSI, tirando o aspecto cinematográfico, o que fazemos aqui não é diferente. Aliás, sempre falo para as pessoas que fazemos melhor que o CSI. Eles só cuidam de crime contra a pessoa, homicídio. Aqui, fazemos tudo: vamos no pequeno furto, no roubo, em acidentes de trânsito, crimes ambientais e aplicamos as técnicas.

No começo deste ano, o senhor foi acionado para atender a um acidente fatal próximo a Cristais Paulista. Quando chegou ao local, descobriu que a vítima era um sobrinho. Como é trabalhar em situações como esta?
O perito, normalmente, é muito frio neste exame que faz no local, pois sempre se depara com as emoções de familiares das vítimas que estão próximos. Precisamos nos manter focados no trabalho para não perder a concentração. No dia, havia dois chamados simultâneos: uma tentativa de homicídio em Batatais e o acidente. Priorizamos o segundo porque tinha cadáver no local. Ainda sem ter contato com o corpo, o policial começou a me passar informações e disse o nome da vítima. Meu sobrinho trabalhava em Rondônia, nem sabia que estava por aqui. Foi chocante. Ele ainda estava preso às ferragens. Logo depois, os pais dele chegaram. Foi uma situação difícil, mas o trabalho foi feito. São coisas da vida.

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