No tempo dos gibis


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Nos anos 1960, alunos foram incentivados a participar das campanhas de desarmamento infantil. Era a entrega de brinquedos considerados ofensivos, tais como pequenas espadas, estilingues, revólveres de brinquedo e os velhos gibis. Os alunos entregavam os brinquedos e gibis, e em troca recebiam livros didáticos. Para quem desconhece o termo, gibis eram revistas em quadrinhos, com ‘mocinhos’ que sacavam mais rápido, tinham a melhor pontaria e, no final, se casavam com a ‘mocinha’.

Muitos dos educadores daquele tempo ou desconheciam, ou queriam ignorar a importância da leitura dos gibis, fossem eles de bandidos ou de mocinhos. Quantos de nós, adultos e idosos de hoje, não iniciamos a nossa vida de leitura usando os gibis? Outro ato condenável era a prática de colecionar figurinhas. No intervalo das aulas, ou no recreio, eram comuns rodinhas de estudantes apostando, jogando bafo. As figurinhas eram amontoadas e, cada um por sua vez, batia com a mão em formato de concha. As figurinhas que virassem eram entregues ao vencedor.

Esse era tempo em que tomar leite com manga era morte certa; quando a leitura dos gibis era condenada, quando as famílias se reuniam nas calçadas para conversar, quando as crianças viviam soltas na rua, sem a preocupação de hoje. Um tempo distante das grades que hoje segregam as famílias, que prendem as crianças em casa e fazem delas reféns dos computadores, do iPad, do mundo virtual. Éramos felizes e não sabíamos.

Somos obrigados a fazer comparações e aceitar a nossa condição de ultrapassados. Ultrapassados, porém não comprometidos, e acima de tudo inconformados. Afinal, sobram motivos, e a cada dia que passa aumenta a convicção de que em tempo algum a nossa inteligência foi tão aviltada.

Vitor Sapienza
Deputado estadual (PPS), economista, ex-presidente da Assembleia Legislativa de SP

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