Como estimular pessoas a se tornarem melhor informadas, multiplicadoras de opinião, ética e cidadania?
Há dez anos, tenho perguntado àqueles a quem treinei e continuo treinando em Expressão Verbal e Gestual se, em alguma época de suas vidas, foram estimulados a falar, a argumentar, a debater, a defender seus pontos de vistas, a apresentar ideais com eficiência e eficácia.
As respostas, unânimes e independentes de épocas, sempre foram ‘não, em situação nenhuma!’ Ao contrário. ‘Em casa, aprendemos que falar é prata, ouvir é ouro’, além do “cala a boca, menino!”. ‘Não tínhamos o que dizer ao mundo adulto e nunca houve adultos com paciência suficiente para ouvir ‘só aquilo que já sabíamos dizer, certo ou errado’’. ‘Fomos desestimulados a falar no ensino fundamental, no ensino médio, na universidade, e orientados a só ‘falar’, através da escrita’. Quanto aos escritos, ‘Fizemos trabalhos para notas, mas, com a certeza de que só raramente os professores iriam conferir, contratávamos alguém para escrever. Mais recentemente, estimulamo-nos ao CRTL+C e do CRTL+V (copiar e colar) dos computadores, depois de ‘pesquisa’ no Google’. ‘Felizmente, ‘não temos (ou tivemos) que enfrentar provas orais’, que ‘tomam muito tempo para ser aplicada em todos os alunos da classe’. ‘É bom que seja assim. Não há nada que cause mais dor de barriga e terror que prova oral’. Somos desestimulados a falar no trabalho. Direções de empresas preferem relatórios escritos, impressos. ‘Fica documentado’. ‘É mais prático’. Pois é. Mesmo em pleno século XXI, o século da informação, a maioria ainda se sente desconfortável quando alguém aponta, e diz: ‘fale’. As mãos suam e esfriam. O coração acelera. As pernas tremem. O que se ia dizer, desaparece. Uma dor terrível, que começa ‘na boca do estômago’ e se transforma rapidamente em incontrolável desejo de fugir rumo ao sanitário mais próximo, define o homem moderno e iguala pobre e rico, letrado e iletrado, bonito e feio, poderoso e fraco. Há professores, advogados, juízes e promotores; jornalistas, cantores, pastores e padres, médicos, delegados, estudantes em véspera de TCCs, gerentes de empresas e empresários por ai, a atestar. Falar, e falar com eficiência e eficácia é para poucos. Nossa sociedade não prestigia a fala, não aprendeu a ouvir, não quer saber de adquirir informação, não compreende efetivamente o gesto. Sabemos ler e escrever, mas não somos capazes de expressar o que queremos, o que pensamos.
Há, ainda, outro fator complicador. Fosse diferente, a fala finalmente prestigiada, não haveria o que dizer! Tem outro teste que aplico a meus treinandos. Pergunto: quem, hoje, leu algo em jornal local ou nacional? Quem leu, esta semana, pelo menos, parte de uma revista nacional? Continua unânime: ninguém! Se alguém diz que leu, desafio: ‘compartilhe com a gente a informação mais relevante que agora você possui’. Ai, o cidadão sua, suas mãos esfriam. O coração acelera. As pernas tremem...
Prossigo: quem viu televisão? Várias mãos se levantam. Pronto a ficar feliz, insisto: assistiram a um telejornal? As mãos baixam. Se, ao contrário, estimulo falas sobre capítulo de novela, o debate - irrelevante - se instala. É profundamente grave. Às dores físicas que acometem quem é indicado a falar, acrescente-se a falta de conteúdo.
Aparentemente, a rotina que os destreinados insistem em praticar não tem remédio. De estalo, no último dia em que me encontro com o grupo em treinamento – e, nesses, há gente de todos os perfis, cultura e educação – insisto: ‘quem hoje leu, ouviu, soube...?’. Continua igual. Alguns, que compreenderam bem técnicas de expressão verbal e gestual que treinamos, se levantam e, menos tímidos, arriscam: “não deu tempo”, “é muita coisa, não como há como saber tudo, mas vamos melhorar”. Há também quem esconda o rosto, envergonhado. É fácil entender porque políticos não precisam de muito para ganhar o voto de quem quer que seja...
‘AVALIAÇÃO FORMATIVA...’
Vem ai o Saresp 2013. Será em novembro. O governo quer saber em que nível está o aprendizado dos alunos de ensino fundamental e médio de escolas municipais e estaduais, ‘para monitorar as políticas públicas de educação’. O querer é saudável, mas, as provas – mesmo atestadas por especialistas –, ainda são as velhas provas, escritas. O sistema ensina a ler e a escrever, mas continua falho em estimular fala, gesto e audição, ferramentas essenciais para a prática do preceito constitucional da livre expressão do pensamento. Sem prática, as pessoas engasgam, ou se calam. De mais a mais, segundo o texto ‘Matrizes de Referência para Avaliação’, não há como mensurar prática! (Transcrevo, das páginas 19 e 20 do documento (disponível para leitura em http://file.fde.sp.gov.br/saresp/saresp2013/Arquivos/Saresp2013—MatrizRefAvaliacao—DocBasico—Completo.pdf): ‘As habilidades que permitem inferir o domínio (...) são (...): analisar fatos, acontecimentos ou possibilidades na perspectiva de seus princípios, padrões e valores; (...) fazer prognósticos que implicam interpretações não redutíveis a casos conhecidos; fazer generalizações ou deduções que implicam bom domínio da lógica; apresentar justificativas ou explicações sobre acontecimentos, experiências ou proposições’. Continua: ‘Embora importantes para o desenvolvimento dos alunos (...) não são passíveis de ser avaliadas em instrumentos formais de provas realizadas em larga escala, como é o Saresp’. É pior ainda: ‘devem, entretanto, fazer parte do trabalho de avaliação formativa contínua, realizado pelos professores’. Sinto, professores. A culpa é de vocês...
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.