Disse uma vez o poeta que o galo é um apagador de estrelas. Nada mais lógico, principalmente em se tratando de uma consideração poética dita ( e escrita ) pelo nosso saudoso Josaphat. Sei perfeitamente que ele buscava inspiração na sua própria maneira de sentir e “ouvir” a poesia, mas, que diabos, até um canto de galo parecia se tornar audível em seus contos ou poemas! Bastante suspeito para falar sobre o vate, não posso, mesmo assim, sabotar minhas lembranças de vê-lo declamando, às vezes baixinho, suas composições entremeadas de sentimentalismo lírico. Excessivamente tímido, não logrou se tornar tão conhecido além do eixo Franca/Ribeirão Preto, mesmo assim o seu talento encaminhou sua timidez até a Academia Brasileira de Letras, quando foi laureado com o primeiro prêmio num concurso de poesias de âmbito nacional com o livro intitulado A Solidão Povoada. Como se adivinhasse, deixou-nos numa solidão devastadora de sentimentos e saudades, povoadas pelas lembranças de suas poesias, contos e crônicas, pela delicadeza de seus atos e pela pureza do seu espírito. Josaphat foi um puro. Dotado de intrigante paciência e calma, não se alterava por nada nesse mundo. Era sábio, tinha poucos amigos, grandes amigos, os quais me permito não citar pelo simples fato de serem pessoas especialíssimas: poderia esquecer algum nome, o que seria lamentável. Prezava a poesia acadêmica, com ênfase aos sonetos. Deixou algumas centenas deles, todos inéditos, os quais talvez nunca serão publicados e lidos, a não ser que um mecenas traga-os à luz para alimentar as almas sedentas por poesia. Mas Josaphat está voltando. Sinto-o perto como se estivesse querendo me dizer algo. Nada a ver com o espiritismo, com o devido respeito aos que são. Sou católico e devoto de Santo Agostinho, para o qual estou erigindo com as próprias mãos uma pequena gruta de pedras tapiocanga retiradas de uma grande laje. Vai ser um lugar de oração, de recolhimento espiritual, de encontro com a alma. Uma grutinha à toa, porém simbolicamente mágica, guardando uma imagem, dotada de simplicidade, plantada na terra fria, composta dessas pedras rubras pela composição de óxidos de cobre e ferro, rubras como a paixão, pesadas como a verdade, intensas como o amor, porosas como os meandros da vida, fortes e inabaláveis como a fé !
Josaphat Guimarães França criava poesias do canto de um galo, do caudal de um grande rio ou de um pequeno regato. Às vezes, bastava-lhe uma árvore ao sabor do vento, estivesse ou não florida. Não era necessária a primavera, para ele a emoção estava em todas as estações do ano, em todos os dias, houvesse sol ou chuva, fizesse frio ou calor. Nada nunca alterou o clima existente em sua alma, repleta de paz e transbordante de sensibilidade, como neste pequeno poema :
“De cima e do alto desce,
ansiosamente esperada,
a chuva ...Ela parece,
que desce por uma escada
suspensa infinitamente ...
Que bom se na que ela desce,
a mesma escada pudesse
levar para o céu a gente !”
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