Quando um assunto começa a ser repetido, criticado, ou providências não foram ou não serão tomadas, ou quem reclama é um idoso, dotado de pequena dose de paciência, em outros casos, descrente para com o que assiste. Fiquemos com a segunda hipótese, a que soma idade com desilusão, e teremos cidadão com inúmeros motivos para reclamar.
No nosso caso, o privilégio da vida parlamentar nos dá outros direitos, como apresentar soluções, sugestões, críticas que nem sempre chegam ao ponto que deveriam atingir, mas, nem por isso, abrimos mão do direito de reclamar, de apontar erros cometidos em nossa sociedade.
O motivo da crítica do momento é bem simples: é imenso o número de jovens que perambulam pelas ruas, sem nada para fazer. A justificativa é sempre a mesma: o Estatuto da Criança e do Adolescente não permite que trabalhem antes de completar dezesseis anos.
Pouco importa quem foi o autor da ideia, embora fique nítido que o verdadeiro motivo era preservar o emprego das pessoas ainda em idade produtiva que, depois de passarem dos quarenta anos, eram consideradas ‘velhas’ para o mercado. Ao proteger a esses, os autores do ECA atiraram no carrapato e mataram o cachorro, ou seja, impediram que na outra ponta da fila fossem abertas vagas para os mais jovens.
Somos do tempo em que se começava a trabalhar aos doze anos, mostrando com orgulho nossa ‘carteira de Menor’. Éramos incentivados a poupar, preparar o futuro, estudar, e o mais importante, ajudar os pais na manutenção da casa. Assim, inconformados com o que temos hoje, somos obrigados a remar contra a correnteza, e adotar nossa postura de ‘idoso que adora reclamar’. Mas, fazemos com orgulho.
Quantos de nós carregaram as velhas caixas de engraxar calçados, trabalharam fazendo carreto em feiras livres, venderam produtos nas ruas, ajudaram os pais em casa?
Quantos iniciaram a vida profissional correndo contra o tempo pelas ruas, na difícil vida de office boy? Quantos jogaram fora oportunidades para ajudar no ganha-pão da família? Quantos tiveram que trabalhar durante o dia e enfrentar a dureza de curso noturno, em época sem facilidades de locomoção; ou em uma época de reduzido número de universidades?
E, por acaso, esses batalhadores teriam ficado traumatizados por terem começado a trabalhar ainda jovens? Certamente que não, embora nossos educadores contestem, alicerçados na ideia de que o jovem precisa estar nos bancos escolares.
Mas, quem garante que isso acontece? Será que estando longe do trabalho o jovem estará perto da escola? E entre as duas atividades, não devemos nos esquecer de que é sempre muito difícil resistir aos incessantes apelos de consumo. E destaque-se, ‘todo tipo’ de consumo!
O que nos preocupa é o destaque. Sim, porque não podemos nos esquecer o que poderá acontecer com uma mente desocupada.
Principalmente quando ela tem várias opções a seu dispor, sejam elas para o bem ou para o mal. Tudo é questão de escolha.
Vitor Sapienza
Deputado estadual (PPS), economista, ex-presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.