Um levantamento feito pelo Observatório Nacional de Segurança Viária por encomenda da revista ‘Veja’, com base nos pedidos de indenização ao DPVAT (o seguro obrigatório de veículos), revela que o número de vítimas no trânsito é muito superior ao apurado pelas estatísticas oficiais. Em 2012 foram registrados mais de 60 mil mortos, um aumento de quase 4% em relação a 2011, e 352 mil casos de invalidez permanente. De acordo com o estudo, morre-se mais em acidentes de trânsito no Brasil do que por homicídios ou câncer. Uma situação preocupante e que já desenha um quadro mais sombrio para o futuro. Medidas urgentes são exigidas, mas não há muito que se fazer quando se constata que a maioria dos acidentes envolvendo veículos automotores no Brasil deve-se ao motorista — grande parte é despreparada para assumir a direção de um carro ou de uma moto.
Ainda de acordo com o levantamento, o Brasil tem a maior taxa de mortes no trânsito do planeta: são 31,3 mortos para cada 100 mil habitantes. Além disso, 41% das vítimas fatais, no ano passado, tinham entre 18 e 34 anos. Os jovens são as maiores vítimas deste trânsito maluco. A principal constatação é de que mais de 95% dos desastres viários no País são resultado de uma combinação mortal de irresponsabilidade e imperícia. A precariedade de vias de rolamento (ruas e estradas) e a qualidade do veículo brasileiro, abaixo do que se exige em países mais desenvolvidos, têm parcela de responsabilidade, mas muito pequena diante dos motoristas despreparados e imprudentes.
O levantamento mostra que o primeiro problema está relacionado à ineficiência do Poder Público na aplicação das leis e à inclinação natural do brasileiro para burlar regras. O segundo tem sua origem no foco excessivo em se multar o infrator, sem que seja dada alguma atenção à formação não só dos motoristas, mas também de pedestres. Uma fiscalização eficiente e constante, aliada à educação para o trânsito como matéria obrigatória nas escolas teria o poder de fazer o brasileiro abandonar as condutas de risco, adotando automaticamente uma postura responsável. Não basta apenas multar: é preciso punir com rigor e, acima de tudo, orientar e ensinar.
O que não se pode é manter a passividade diante desta realidade que todos os dias tira a vida de cidadãos surpreendidos pela irresponsabilidade alheia. Quando se instituiu a obrigatoriedade do uso do cinto de segurança, aos poucos se tornou regra aquilo que, até então, o brasileiro via como exceção. Mas foram necessárias campanhas maciças de orientação, além de uma fiscalização rigorosa. A Lei Seca só não vingou até agora por causa dos meandros da legislação, que continua tratando de forma branda motoristas assassinos que deveriam ser condenados por homicídio doloso (com intenção de matar): quem assume a direção de um carro bêbado sabe muito bem que corre o risco de matar ou morrer. Idem para os que não observam as leis de trânsito, a sinalização ou a velocidade máxima permitida.
Enquanto a questão não for tratada no Brasil com a seriedade que merece, estaremos fadados a acompanhar, diariamente, relatos das tragédias que enlutam famílias, invalidam cidadãos produtivos e deixam sequelas não apenas físicas mas também nas almas de milhares de brasileiros a cada ano.
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