Endividada, denunciada ao Ministério Público do Trabalho e com processos na Justiça, a Francana corre risco de perder a própria identidade. Fruto de décadas de doações e aquisições de beneméritos, a sede social e recreativa do clube pode ser perdida até o final do ano. A sede fica na rua Simão Caleiro, no Centro, e é dotada de piscinas, quadras esportivas e campo de futebol.
Em entrevista reveladora, o presidente da Associação Atlética Francana, o empresário Fahim Youssef Issa Neto, deixou claro a situação de extrema penúria vivida pelo clube pouco depois de comemorar o seu centenário. “Temos uma situação que tem que ser resolvida imediatamente, que é a questão da sede recreativa, caso contrário ela vai para leilão. A dívida do clube é de mais de R$ 12 milhões com ações trabalhistas, FGTS, INSS e IPTU.”
Segundo Fahim, o clube possui 209 processos na Justiça. “Os processos serão unificados e se não resolvermos até outubro, vamos perder a sede.”
A semana começou perturbadora. A imagem do clube ficou arranhada nacionalmente diante da denúncia do Sindicato dos Atletas Profissionais do Estado de São Paulo ao Ministério do Trabalho, alegando condições precárias na moradia e com a alimentação dos jogadores do clube. Um fiscal esteve no alojamento do time para fiscalizar o local e rotina dos jogadores. Em uma casa, na Estação, a primeira irregularidade era a superlotação do imóvel, com 35 pessoas amontoadas nos cômodos do alojamento. Sujeira, roupas e sapatos espalhados por todo canto foram registrados em fotos e vídeo e encaminhadas ao Ministério do Trabalho e à Federação Paulista de Futebol. Fahim defende a Francana das acusações e trata o fato como “armação”.
Em meio a esse cenário e à grave crise financeira que o clube atravessa, o mandatário não descarta a possibilidade de tirar o time de campo e pedir afastamento da Copa Paulista. Até mesmo sua continuidade na presidência da Francana está sendo analisada. “Não é fácil. Você não tem ajuda e ainda por cima só leva bordoada. Não morro de amor pelo meu cargo, no dia que aparecer um interessado pode ter certeza que sou o primeiro a renunciar. Em casa, sofro pressão da minha família pedindo para deixar o clube.”
Comércio da Franca - Sua gestão entrou com o propósito de equalizar a dívida do clube. Como está essa situação? Em quanto é estimada a dívida do clube?
Fahim Youssef - O torcedor pensa que é só montar um time bom e pronto. Temos uma situação que tem que ser resolvida imediatamente que é a questão da sede recreativa, caso contrário ela vai para leilão até o final do ano. O clube é um dos campeões de audiências na Justiça, com 209 processos, mais de 100 deles trabalhistas. Os processos serão todos unificados e se não resolvermos até outubro, vamos perder a sede porque irá a leilão. A dívida está em mais de R$ 12 milhões (segundo ele, são R$ 1,5 milhão de dívidas na Justiça do Trabalho, R$ 7,4 milhões na Justiça Federal - INSS e Fundo de Garantia, R$ 2 milhões com a Prefeitura (IPTU) e R$ 1,6 milhão de processos cíveis). Para a Prefeitura, o valor não é pago há mais de 20 anos. O IPTU da sede recreativa é de R$ 49 mil por ano. O quadro associativo não paga nem o cloro da piscina olímpica. Virei ‘freguês’ na Justiça do Trabalho, toda semana chega à minha clínica um ou dois oficiais para entregar notificação.
Comércio - Existe uma solução para resolver toda essa questão?
Fahim - Se não tomarmos uma posição definitiva, vamos perder a sede da rua Simão Caleiro. Irei pedir para o prefeito fazer uma desapropriação da área. Pelo menos, os oportunistas não vão ficar esperando o leilão para arrematar. A Prefeitura assumindo a sede é a melhor coisa para a Francana. Claro que se conseguir um grupo de investidores que comprem o local, seria bom para o município, pois não onera o poder público. Porque tudo aquilo que vai a leilão é arrematado por muito menos. A dívida do clube é impagável. Não estou jogando o abacaxi para a Prefeitura, temos que ver, é claro, se a área interessa.
Comércio - Em quanto está avaliada a sede social e recreativa do clube?
Fahim - No mercado, ela ‘limpa’ vale em torno de R$ 20 milhões. ‘Limpa’ eu digo, pois hoje temos 25% da área adjudicada, que pertence a outros donos. Do total da área, 195% (em relação ao valor venal, não de mercado) está penhorada. A área está quase 200% penhorada acima do seu limite de valor venal (que não foi revelado por ele). Praticamente não temos mais nossa sede.
Comércio - Diante desse cenário, você vê que está mais próximo de encerrar o futebol profissional na cidade?
Fahim - Seria a coisa mais prudente. Sem dinheiro, o clube tem que recorrer a parceiros e temos arrumado apenas picaretas. A cidade mais cobra do que ajuda o clube. Não tenho máquina de fazer dinheiro. Aliás, eu, diretores e outros presidentes estiveram no clube, colocaram dinheiro no time, pois sempre tem um pepino para resolver. Do jeito que está não dá.
Comércio - A cidade virou as costas para a Francana?
Fahim - Aonde vamos, todos revelam alguma mágoa com a Francana. Não quero entrar no mérito de administrações passadas. Comandar um time de futebol do interior é muito complicado. O calendário favorece apenas os grandes clubes. O campeonato do interior tem duração de três a quatro meses. A realidade no interior é de que muitos clubes estão quebrados, por isso não podemos dar um passo maior do que o outro.
Comércio - Por um descrédito por parte da classe empresarial e da própria cidade, corre-se o risco da Veterana não disputar o Campeonato Paulista da A-3?
Fahim - Isso não! Vamos montar o time de acordo com o que tivermos no orçamento. Se o recurso for baixo, vamos com uma equipe meia boca que deve brigar contra o rebaixamento. Se não tiver o envolvimento do empresariado e do poder público, será muito difícil não apenas na Série A-3, como também para a sequência do clube no futebol.
Comércio - A imagem do clube acabou arranhada com a denúncia do Sindicato dos Atletas ao Ministério Público do Trabalho sobre condições inadequadas de moradia e alimentação dos atletas. O que de fato aconteceu?
Fahim - Foi tudo uma armação. Havíamos dispensado alguns atletas na semana passada, mas eles pediram para continuar no alojamento para resolverem a compra de passagens, entre outras coisas. A partir daí criaram esse teatro. Comida nunca faltou e o salário de todos não estão atrasados. Alguns traíras já deixaram o grupo e ainda tem outros que vamos tirar também. A confiança foi perdida.
Comércio - Com essa repercussão e a falta de dinheiro, o senhor colocou em xeque a continuação da Francana na Copa Paulista. O presidente pretende pedir afastamento?
Fahim - Entramos em contato com a Federação Paulista de Futebol e passamos o nosso momento. Sem dinheiro não tem como tocar futebol. Estamos vendo a melhor situação para não prejudicar o clube com uma punição severa, que possa nos atingir para a disputa da Série A-3 de 2014. A hipótese está sendo analisada e pode ocorrer sim.
Comércio - Em um primeiro momento o time não iria disputar competições profissionais no segundo semestre. Por que a mudança de atitude na última hora?
Fahim - Fui procurado por um grupo de empresários de Ribeirão Preto interessados na nossa participação. O que me atraiu mesmo foi a conversa que envolveria investimentos para o estadual da A-3. Um contrato foi feito, mas ele não paga a conta. Fomos enganados.
Comércio - Nesse acordo, o que foi firmado entre as partes?
Fahim - Ficou acertado em reunião que eles (parceiros) pagariam despesas com transporte, alimentação e salários dos atletas. A Francana tinha como responsabilidade fornecer a moradia. Entramos com uma ação, mas o problema é pontual e temos que resolver. Vamos conversar com cada jogador na próxima semana e rediscutir acordos que tinham sido firmados pelos empresários.
Comércio - Uma empresa de refrigerantes da cidade fez um camarote no Póli. É verdade que tinha projeto para se ter o mesmo espaço VIP no Lanchão? Por que não deu certo?
Fahim - Não quero entrar no mérito da administração municipal e da Feac. Para ter o camarote precisamos seguir algumas normas da área para executar e realizar processos licitatórios. São coisas que não tenho muito conhecimento. Mas ficamos assim porque em outras cidades existe esse apoio e na nossa não. Acho que alguns termos da lei municipal precisam ser modificados, como nos casos do espaço público. O Lanchão existe por causa da Francana, mas é um campo que quase não usamos.
Comércio - Você foi parar na presidência por falta de candidato. Tinha alguma pretensão política na época? Por que continua no cargo?
Fahim - Não sou aquele cara que abandona o barco. Comecei e vamos até o fim. Assumi a diretoria executiva, pois reformulamos o estatuto para não ter oportunistas dentro dela. Sem candidato ao pleito, tive que assumir o posto. Hoje, se tiver qualquer pessoa interessada no cargo, que se apresente, pois serei a primeira pessoa a renunciar, principalmente pela pressão da família e questão profissional. Se depender exclusivamente da minha família diante dos últimos acontecimentos estaria fora.
Comércio - Então essa é uma possibilidade real?
Fahim - Passa sim (pela minha cabeça). Além dos nossos afazeres fora, maior parte do nosso dia é dedicado ao clube e ainda assim somos bordoados. Tenho alguns projetos engatilhados e algumas situações discutidas com o prefeito Alexandre Ferreira (PSDB). Mas se não tivermos apoio, estarei fora. Não vou ficar martelando a ferro frio. A Francana não é minha, é da cidade.
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