Uma novidade essa semana - novidade para mim, segundo minha filha me esclareceu - deixou-me entre incrédula e indignada. Chega Júlia com um pequeno copo contendo um açaí, lindo, delicioso, provocantemente vestido naquele tom berinjela que só ele tem. Pergunto-lhe se ela quer mel para acompanhar. Não, ela responde, já tem leite condensado... Fiquei em choque, em choque mesmo, não estou brincando: “como assim?! Você colocou leite condensado no açaí?” E ela, imperturbável: “sim”. E me esclareceu que lá, no lugar onde ela comprou, tem outras opções: M&M, nutella e outros.
Sei que nem todos me compreenderão, sei que, pela moda, muitos devem comer e gostar, afinal, quem não gosta de leite condensado? Meu pai mesmo, nordestino, duro, seco, inquebrantável, todas as vezes que via minha mãe com uma latinha de leite condensado nas mãos dizia: “lá vai a Luzia desperdiçar mais uma”. Mas não é isso, não vem ao caso discutir o gosto do leite condensado, mas discutir em se permitir singularizar o paladar. Então, se gosto desse gosto deixo tudo com esse gosto aí.
Comer é uma arte, fazer comida um ato de generosidade. Não custa pensar um pouquinho. Qual é a primeira manifestação artística do homem? Quais são os primeiros atos refletivos da inteligência humana? Quando o Homo sapiens, a cerca de 200.000 mil anos atrás, quis contar a sua história, quis se expressar artisticamente, ele nos contou da sua alimentação. A arte rupestre é um retrato da alimentação do primeiro animal dotado de inteligência. Ele deixou para nós um documentário plástico de como eram as suas armas de caça, as suas armadilhas, a sua comida em estado natural, vê-se a retratação de bichos nadando, correndo e voando, não porque eram bichos, mas porque eram comida.
E a inteligência, essa imensa faculdade que fez do homem animal único, a saber de vida e morte, nasceu porque o homem precisava comer e vencer a sua inferioridade muscular. Criou armadilhas de caça e pesca, lidou com o envenenamento, aprendeu a conservar o excedente. Informações preciosas para traçarmos hoje um panorama da vida dos nossos ancestrais. “Qualquer concepção do conjunto social no plano econômico ou metafísico implica necessariamente o desenvolvimento dos processos aquisitivos da alimentação”.
Qual será o retrato de nossa civilização se formos deixando pra lá aquilo que nos difere, se não mais nos sentarmos à mesa tendo a frente aquele prato que instiga o paladar ou que conforta a alma por saber-se em casa? Autômatos: isso é o que seremos.
O paladar sofre e deita armas sem grande algazarra, é preciso atenção com ele. Ouvir aquela música que já ouvimos em algum lugar, sentir aquele cheiro, aquele perfume inesquecível, faz o cérebro viajar e nos enlouquecer enquanto não colocamos toda a recordação em ordem. Mas o paladar não é assim, ele não tem forma externa, está dentro da gente, é preciso amá-lo, cultivá-lo. Os gregos, claro, mais uma vez eles, não eram bárbaros, como sabemos, e comiam em silêncio. Com o centro de interesse no paladar, com consciência voltada para o alimento a ser deglutido. Fizeram conhecido o termo symposion - a bebida aberta ao final do jantar, essa sim companheira dos debates sérios ou de frívola conversa.
Donde se depreende que encher a barriga, matar a fome, não combina em nada com a percepção do alimento. O ritual de sentar-se à mesa, o círculo familiar em torno da comida é fundamental para ouvir as suaves notas do paladar: silêncios intercalados por música.
E quanto a Júlia Neves? Está proibida de colocar leite condensado no açaí. Se estiver com vontade desse, coma-o, se for daquele que fure a latinha e saia mamando-a por aí.
DICA DA SEMANA
Massa
A massa caseira reconhecida como a melhor da Itália é a da região Emilia Romagna, de onde veio o tagliatele e o tagliolini ou cabelo de anjo. A massa consiste em ovos e farinha de trigo, ocasionalmente acrescenta-se espinafre para a massa verde.
A massa caseira deverá parecer mais leve e reterá melhor o sabor do molho, sobretudo, daqueles molhos delicados. Nessa região da Itália, antigamente, as meninas começavam a aprender as técnicas da boa massa aos 6 anos, hoje em dia a grande maioria, quando cozinha, faz usa das boas máquinas de fazer macarrão.
A dica de hoje é quase uma brincadeira, já que ponto de macarrão não tem certo e errado, cada um tem um gosto e não se discute. Mas existe uma técnica para fazer, ou melhor, para se descobrir o verdadeiro ponto “al dente” do macarrão.
Coloque água suficiente para ferver. Depois que levantar fervura adicione 3 colheres de sopa de sal, a água deixará de ferver. Espere retornar a fervura, então, desligue o fogo, jogue o macarrão na água cubra com um pano de prato e só então encaixe a tampa da vasilha, é para abafar bem. Cinco minutos depois teremos o verdadeiro espaguete “al dente”. Esse tempo serve para espaguete. Massas mais grossas podem esperar até 8 minutos.
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