Números que enganam


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Anunciado como uma grande notícia, o recorde de depósitos na caderneta de poupança no mês passado permite, ao analista mais atento, outra leitura: a situação econômica do País permanece intranquila. Certamente grande parte do dinheiro depositado em julho foi desviada de investimentos que o setor privado deixou de fazer para preservar o patrimônio. A estagnação da economia brasileira é evidente e, por enquanto, o governo ainda não demonstra ter consciência de que a situação é muito grave. Estuda apenas novas desonerações, esperando que assim conseguirá levar a iniciativa privada a retomar os investimentos. Mas, como já se disse aqui mesmo na Objetiva, este é um modelo esgotado e que desde o final do ano passado não surte mais os efeitos desejados.

Ao direcionar seus recursos para a poupança, o empresariado congela os investimentos no setor produtivo, numa clara aposta na atual deterioração da economia brasileira. Hoje, embora os rendimentos estejam aquém do que estão acostumados os investidores, a caderneta de poupança é o meio mais seguro de manter o valor do dinheiro. O mercado financeiro, volátil, já não é capaz de assegurar ganhos acima dos da poupança, principalmente por causa dos pesados tributos incidentes sobre as aplicações.

O câmbio continua sendo uma caixinha de surpresas, já que o governo não deixa claro a sua política diante da alta do dólar frente ao real. Como intervém apenas de vez em quando, na maioria das vezes deixando a moeda norte-americana superar o teto defendido pela área econômica, o governo afasta os investidores ao não esclarecer se vai ou não deixar o câmbio flutuar livremente.

Já a Bolsa de Valores, que não está conseguindo repetir os bons números de anos anteriores, vê a crise afastar investimentos internos e externos. O baque do Grupo X, de Eike Batista, cujas ações valem hoje um décimo do que valiam há um ano, foi a grande responsável por esta fuga de recursos.

Ninguém sabe, hoje, como aplicar o dinheiro de forma segura e, por isso mesmo, a caderneta de poupança atinge recordes históricos. Nada mais garantido do que deixar o dinheiro aplicado, preservando-o da corrosão inflacionária que começa a rondar o brasileiro. Enquanto o governo não encontrar uma saída imediata para as turbulências, quando a economia global começa a dar mostras de recuperação, com certeza a poupança será o investimento menos arriscado. Se não conseguir voltar a estimular o crescimento econômico, o governo Dilma Rousseff pode até inviabilizar quaisquer investimentos. E estes são o maior remédio para curar a enfermidade crônica que acomete a economia brasileira nos dias de hoje.

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