O que têm em comum uma classe barulhenta e uma escola depredada? Para muitos, ambas as situações denotam típicos casos de indisciplina – grande fantasma que assola o trabalho educativo de professores em todas as etapas. Contudo, é preciso cuidado. A compreensão do tema da indisciplina passa pela aceitação de sua inerente complexidade. O pior começo é colocar todas as situações de conflito no mesmo balaio, jogando a responsabilidade em famílias pouco presentes, gerações pouco afeitas a regras, novos tempos.
Antes de tudo, a questão da indisciplina é um convite para que todos nós nos debrucemos sobre as imensas transformações pelas quais passam o mundo, a escola e a nossa ação como educadores. Talvez devamos começar por aceitar o fato de que a escola não é o templo sagrado da harmonia, mas um espaço de relacionamento humano onde o conflito é não apenas natural, como potencialmente educativo. Sim, a escola é feita por gente, e a convivência é um aprendizado cotidiano.
Com base nessa reflexão, é possível escalonar ou diferenciar as faces dos problemas ligados à convivência e às incivilidades. Bullying e brigas de gangues pouco ou nada têm em comum e requerem soluções distintas. Da mesma forma, a violência escolar é sintoma de questões diferentes das que existem em sala de aula e levam os professores a arrancar os cabelos com jovens rebeldes ou desinteressados.
Quando misturamos todas essas situações, corremos o risco de alimentar uma corrente equivocada, que leva a escola às páginas policiais, com a criminalização dos conflitos típicos dos relacionamentos humanos. Então, grades e câmeras começam a parecer boas soluções, e a escola se acostuma a um clima de estado de sítio.
Vale notar que, em todos os casos, mesmo quando a escola precisa de um apoio externo – por exemplo, das Varas da Infância e da Família –, ainda assim haverá o que fazer, do ponto de vista educativo. Existe um conhecido repertório de estratégias e posturas pedagógicas que são eficientes e devem ser consideradas pelos educadores como parte do seu fazer, ao lado do ensino de conteúdos.
São ações que envolvem a gestão, as famílias, os professores e os alunos em soluções pactuadas e baseadas em princípios, valores e responsabilidades compartilhadas. Se isso não fosse verdade, não haveria tantos exemplos positivos de escolas públicas e privadas que superaram seus problemas e vivem em ambientes de ótimo clima escolar - fator fundamental para a aprendizagem.
Francisca Paris
Pedagoga, mestra em Educação, diretora do Agora Sistema de Ensino
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