Sopa de alho-poró


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No gosto pela sopa, comida de infância que traz conforto à alma adulta, acho que se inclui uma reflexão sobre o papel deste alimento de tantos significados na vida do homem desde que deixou a caverna e domesticou o fogo
No gosto pela sopa, comida de infância que traz conforto à alma adulta, acho que se inclui uma reflexão sobre o papel deste alimento de tantos significados na vida do homem desde que deixou a caverna e domesticou o fogo

“Isso é sopa!”
Frase popular em língua portuguesa que traduz a facilidade de se fazer alguma coisa.


Julho está terminando e, com ele, lá se vai a época do ano de que mais gosto. Porque o céu em Franca é normalmente tomado por azuis, à exceção de uns cinzas imprevistos. Porque os ipês florescem nos quatro cantos da cidade, começando pelos rosados, sucedidos pelos amarelos, enfim substituídos pelos brancos: caem as flores de uma espécie, logo vem outra formando no chão tapetes de pequena duração e beleza imensa. Também gosto de julho porque os crepúsculos são espetaculares, incomparáveis: “i-nex-ce-dí-veis”, diria escandindo as sílabas a Eny Miranda, amiga poeta. E porque, para completar esse quadro de céu e flores, o friozinho das tardes traz consigo um desejo de alimentos quentes, de vapores perfumados, de notas densas que podem misturar, por exemplo, queijo, manteiga, noz moscada, que são alguns dos ingredientes da sopa que saboreio com muito prazer nesta estação do ano. Sopa de alho-poró, delicada e aromática, despejada às vezes no prato, outras na cumbuca; com felicidade, quando tenho mais tempo, no pão italiano que compro para este fim específico na padaria Estrela.

Identifico-me com Rubem Alves, quando ele diz que, se lhe fosse possível, escolheria tomar sopa todos os dias. No gosto pela sopa, comida de infância que traz tanto conforto à alma adulta, acho que se inclui uma reflexão sobre o papel deste alimento de tantos significados na vida do homem, desde que saiu da caverna e domesticou o fogo. Consumida ao redor do caldeirão em que era cozida, reunia grupos pequenos ou tribos inteiras, que se falavam de forma rudimentar, iniciando o diálogo que haveria de crescer e de adensar à medida que o próprio cérebro evoluía porque alimentos cozidos poupavam energia de que se beneficiava a massa cinzenta. Hoje, qualquer um de nós que prepare, sirva e consuma sua sopa junto dos que lhe são próximos, sua família, seus amigos, retoma um ritual que vem se repetindo ao longo dos milênios e desde as mais remotas eras. De tão ancestral, a mistura de água, vegetais e proteínas animais encerra as próprias origens da espécie humana. Talvez por isso em muitos idiomas a palavra que a designa mantém o sentido de alimento básico, aquele que no início era sorvido - suppen, suppe, no alemão. Soup’s on é o grito familiar que aos ouvidos dos falantes de língua inglesa significa que “a comida está na mesa!” De maneira parecida, os falantes do francês chamam a atenção da criança que mexe e remexe o prato, sem comer, dizendo a ela: “mange ta soupe!”, ou seja, “coma sua sopa”- que pode ser omelete, quiche, ratatouille...

Caldo, consomê, canja, creme e muitas outras denominações ganha a sopa, dependendo da espessura e dos ingredientes. Minha sopa de alho-poró insere-se melhor na categoria creme, pois para ser colocada dentro do pão necessita de textura mais firme. Aliás, o alho-poró está conquistando cada vez mais o paladar dos brasileiros que vem reconhecendo sua versatilidade. Vai bem numa grande variedade de elaborações culinárias, tem sabor delicado, contém muitos nutrientes importantes do tipo vitaminas e minerais.

Começo preparando o pão. Corto uma tampa, retiro o máximo de miolo, passo manteiga no interior e levo ao forno por cinco minutos para firmar bem. Retiro e reservo. Numa frigideira grande aqueço uma colher de manteiga (ingrediente básico da culinária francesa, à qual pertence a sopa) e refogo o alho-poró, cuja parte branca já terei cortado em rodelas fininhas. Tempero com sal e pimenta-do-reino. Deixo amaciar. Retiro e reservo. Na mesma frigideira acrescento outra colher de manteiga. Polvilho farinha. Aos pouco vou pingando leite e mexendo, que é para não empelotar. Quando este molho bechamel fica espesso, está pronto. Junto então o lombinho cortado em tirinhas, o alho-poró que havia sido reservado, as folhas de agrião. Salpico noz-moscada e mexo mais uma vez. Coloco dentro de dois pães italianos pequenos. Cubro com uma colher de parmesão ralado e gratino por dois minutos.


Ingredientes

2 talos de alho-poró (só a parte branca)
2 colheres (sopa) de manteiga
1 ½ colher (sopa) de farinha de trigo
4 xícaras de leite
1 xícara (chá) de lombinho canadense (cortado em tirinhas)
1 xícara (chá) de folhas picadas de agrião (ou rúcula)
2 colheres (sopa) de parmesão ralado
Sal
Pimenta-do-reino
Noz-moscada
2 pães italianos pequenos

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