A revista Isto É, edição nº 2272, de 05/06/2013, trouxe longa entrevista com a ruidosa chamada de capa ‘O império espírita de Zíbia Gasparetto’, no ensejo do lançamento de mais um romance psicografado pela conhecida médium e de autoria do espírito Lucius, cujo título é Só o Amor Consegue. Ocupando o espaço de seis páginas, a conversa entre a revista e a autora registra algumas afirmativas e considerações que merecem análise mais aprofundada. A começar pela chamada da capa, imprópria sob todos os aspectos, mas, criada, evidentemente, para despertar a atenção dos leitores, posto que dona Zíbia, como qualquer outra pessoa, por mais proeminente que seja, jamais possuirá um império espírita.
A médium diz, na entrevista, que não tem religião, declarando, todavia, não se importar que a chamem de espiritualista. Toda opção religiosa ou filosófica é livre e cada um escolhe acreditar naquilo que determina a sua convicção, sem que, por isso, possa ser censurado. Ela mesma declarou não concordar com os rigores dos postulados espíritas, preferindo tornar-se mais aberta a novas ideias, no que está certa, se considerarmos a sua preferência pela liberdade de cobrar pela produção do seu trabalho mediúnico, ainda que contrarie a máxima de Jesus segundo a qual devemos dar de graça o que de graça recebemos, ensinamento respeitado pelos espíritas como princípio de conduta.
Sua opção pelo direito de usufruir dos resultados financeiros advindos do seu trabalho mediúnico ninguém pode censurar. Quanto ao fato de haver afirmado que o médium Chico Xavier ter-lhe-ia confessado que se arrependeu de ceder a entidades assistenciais os direitos autorais das obras que psicografou, parece-nos uma impropriedade. Especialmente porque o médium já não está entre nós para, ante a gravidade da declaração, negá-la ou confirmá-la. Ademais, pelo fato de a vida do Chico ter se tornado de domínio público, todos sabemos que, mesmo depois de sua suposta confissão, ele continuou com o mesmo procedimento, doando todos os direitos sobre as obras que psicografava a entidades espíritas, não se sabendo de um só caso no qual o médium tenha se valido do resultado do seu trabalho mediúnico.
Na referida entrevista, também nos chama à atenção uma afirmativa dos editores na página 80, box superior, de que a Umbanda ‘é um ramo do kardecismo’, com evidente demonstração de desinformação ou má tendência. O Espiritismo respeita profundamente a Umbanda, como respeita todas as seitas e religiões, mas aproveita a oportunidade para esclarecer que ela pertence a outro ramo mediúnico, estranho aos conceitos espíritas kardecistas, sem que, com isso, queira desmerecer os irmãos que se filiam a tal prática.
A observação conclusiva do quanto expomos é a de que, ao mostrar o ‘império’ da família Gasparetto, a reportagem da referida revista deixa no ar a ideia de que os adeptos do Espiritismo estejam se enriquecendo à custa da prática da sua Doutrina, o que, convenhamos, é a mais disparatada inverdade.
Felipe Salomão
Bacharel em Ciências Sociais, diretor do Instituto de Divulgação Espírita de Franca
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