Periferia de Franca: Saldanha Marinho, altura do número mil, cento e poucos de hoje. Calçada e rua eram coisa só, ambas de terra batida. Lampião dos antigos, poste de madeira. Ali não passavam boi nem boiada, mas carroças puxadas a cavalo transportando garrafas de vidro cheias de leite - fresquinho - diariamente trocadas pelas vazias - limpinhas - que nossas mães punham na soleira das portas. Passavam outras, agora cheias de verduras - verdinhas - que o produtor anunciava num portunhol de fazer gosto. Carrinho de picolé: inconfundíveis buzinas, bisavós das vuvuzelas. O grande acontecimento eram os raríssimos carros - marca Ford ou Chevrolet quase sempre - que conseguiam vencer as pistas de terra, lama pura quando chovia. Do lado direito da descida, jabuticabeiras cujas existências deixaram marcas de arranhões e cortes nas nossas pernas. Mais para baixo, campinho de futebol, pasto de gado nas horas vagas. Na foto, a divisão de tonalidades do chão entre os morros registra, lá embaixo, a passagem do Córrego dos Bagres, primeira escola de natação da meninada local. Lá em cima, à direita, imponente, a Igreja São Sebastião. Na pontinha da esquerda ao alto, o barracão de café dos Caleiro, perto da Estação da Mojiana, de onde a preciosa fruta saía para o mundo. Árvores, muitas. O carro devia ser de alguma visita importante para alguém ali do bairro, que na Vila Flores havia um único morador a ter veículo motorizado nessa época, diferente deste. Ainda não fora construído o viaduto - no lugar existia uma pinguela. Ainda não se planejara a avenida marginal - tínhamos apenas folhagens nas margens do córrego. A corrupção não era prática de políticos - locais ou de fora, e a educação das crianças começava no berço. Isso tudo, faz muito tempo.
(Lúcia H. M. Brigagão)
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