Um dos aspectos que mais nos encanta na pessoa de Jesus é a beleza humana presente no seu coração divino
O mundo hoje é bastante tocado pelo sentido da acolhida. O hóspede é sempre uma dádiva para nós. Quando acolhemos uma pessoa, estamos acolhendo o próprio Cristo. Aprendamos com a Palavra de Deus o que significa ‘acolher’ as pessoas. As leituras de hoje são Gênesis 18, Colossenses 1 e Lucas 10.
PRIMEIRA LEITURA — GÊNESIS 18
A característica da verdadeira hospitalidade é o desinteresse. Ao povo de Israel dois personagens bíblicos são apresentados como modelos: Jó e Abraão. Do primeiro se diz que mandou construir casa com quatro portas, de modo que os pobres não teriam qualquer dificuldade de encontrar a entrada. Abraão é considerado não só como o pai da fé, mas também é lembrado como exemplo de solícita hospitalidade, justamente por causa do episódio narrado na escritura. Estava ele descansando durante a hora mais quente do dia quando, ao levantar os olhos, viu três homens de pé diante dele. Foi-lhes ao encontro, mandou buscar água para que pudessem refrescar os pés e fez que sentassem à sombra de uma árvore. Correu para tenda de Sara e lhe disse: ‘Depressa, prepara alguns pães!’. Depois, correu até o rebanho, escolheu novilho tenro e bom, deu-o a um criado, que o preparou. Serviu tudo aos hóspedes, manteiga, leite fresco e o novilho e, enquanto comiam, conservou-se de pé junto deles, sob a árvore. A atitude de Abraão é instrutiva e exemplar. Diante de irmãos que precisam de nós, como nos comportamos? Deus ficou satisfeito com a hospitalidade de Abraão e, para mostrar quanto lhe foi agradável, concedeu-lhe o maior favor que ele podia desejar: deu-lhe um filho. Quem deu e quem recebeu mais? Estamos conscientes que, sob as aparências do pobre, é o próprio Deus que pede hospitalidade, como um dia fez com Abraão, junto ao carvalho de Mambré?
SEGUNDA LEITURA — COLOSSENSES 1
Quando Paulo escreve esta carta, encontra-se na prisão, em Roma, e já está velho. Poucos trabalharam tanto como ele. No trecho de hoje ele diz que, não obstante todos os sofrimentos pelos quais passou, sente-se imensamente feliz porque sabe ter dedicado a sua vida inteira à causa do Evangelho. Por meio dele, Cristo continuou a sua obra: tornou-se presente no meio dos homens e lhes ofereceu o seu amor. Estando na prisão, Paulo está também condenado à inatividade, mas, fazendo uma revisão da própria vida, constata que fez um bom uso dela: anunciou aos pagãos o mistério escondido desde a origem às gerações passadas, mas que agora foi manifestado aos seus santos. Em nossos dias tenho certeza disso. Ainda existem nas nossas comunidades apóstolos tão generosos como Paulo. São os que não poupam energias e não desanimam diante de nenhum sacrifício quando se trata de anunciar o Evangelho. Sua memória permanecerá como uma bênção.
EVANGELHO — LUCAS 10
Lucas gosta de apresentar Jesus sentado à mesa na casa de alguém. O Senhor aceitava os convites de todos: os dos ‘justos’, dos fariseus e os dos publicanos e ‘pecadores’. Na passagem de hoje o encontramos na casa de duas irmãs. Marta, a mais velha, se envolve imediatamente nas suas tarefas. A sua sensibilidade feminina lhe diz que um copo de vinho e um bom prato de carne saborosa, servidos com carinho, mostram, mais do que qualquer conversa mole, o afeto que se sente por uma pessoa. Maria, a mais nova, em vez de colaborar nas lides da cozinha. sentado aos pés de Jesus, escutava a sua palavra’. Começa uma discussão entre as duas irmãs que acaba envolvendo também o hóspede. O que há de estranho no fato de que Maria seja apresentada como ‘aluna’ de Jesus? Para nós, nada. Mas, naquele tempo, nenhum mestre teria aceitado como discípulo, uma mulher. Sendo este o modo de pensar, é fácil entender quanto foi revolucionária a escolha de Jesus de acolher, dentre seus discípulos, também as mulheres.
Vamos analisar agora o ponto mais difícil do Evangelho de hoje: a censura de Jesus a Marta e o elogio a Maria. Deve-se observar, inicialmente, que Marta não é censurada porque trabalha, mas porque ‘fica agitada, ansiosa, preocupada, inquieta-se por tantas coisas’ e, sobretudo, porque se envolve no trabalho sem ter antes escutado a Palavra. Maria é elogiada, sim, mas não porque é preguiçosa, porque faz de conta que não se importa com o trabalho que deve ser feito na cozinha. Jesus não diz que Marta está errada quando chama Maria para cumprir seus deveres concretos; não sugere que banque a espertinha e deixe que sua irmã se vire. Só ensina que a coisa mais importante, que merece prioridade total, se quisermos que a nossa atividade não se reduza a uma ‘agitação’, é ‘a escuta da Palavra’.
Tratemos agora de aprender. Maria escolheu a parte boa porque ‘escutou a Palavra’. Igualmente, outra Maria, a mãe de Jesus, foi elogiada pelo mesmo motivo: estava atenta à Palavra. A narrativa termina com as palavras de Jesus para Marta, mas não parece encerrada. O diálogo entre os dois deve ter continuado, mas não consta no relato de Lucas. Ele parece querer chamar a atenção para outro pormenor que poderia passar despercebido: o silêncio de Maria. Ao longo de tudo, Maria não diz uma palavra, nem para se defender, para esclarecer sua posição, para explicar a própria escolha. Permanece calada e tudo leva a crer que o seu silêncio, sinal de meditação e de interiorização da Palavra, se prolongou também depois. É Marta que agora precisa ‘sentar-se aos pés do Mestre’ para escutá-lo e, assim, recuperar a calma, a serenidade interior, a paz. Marta é generosa, dinâmica, mas cometeu falha: sobrecarregou-se de tarefas antes de alimentar-se com a Palavra. Com certeza, naquela noite Maria trabalhou muito, demonstrando assim que o tempo dedicado à escuta da Palavra de Deus não está perdido ou não é roubado do serviço aos irmãos. Quem escuta Cristo não esquece os compromissos com as pessoas: aprende a desincumbir-se deles de uma maneira certa... e sem agitação.
José Geraldo Segantin
Pároco da Catedral de Franca - segantin@comerciodafranca.com.br
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