‘Todos os princípios desmoronam diante de um lombo de porco com rodelas de limão, tutu de feijão com torresmo, linguiça frita com farofa’
Fernando Sabino
Atiçada por comentário de um jornalista, comprei o recém- lançado Gilberto Freyre e as aventuras do paladar, de Maria Lectícia Monteiro Cavalcanti, prefácio de Marcos Vilaça, publicado pela editora da fundação que leva o nome do sociólogo. Gostei muito da leitura, que me descortinou um Brasil posto à mesa e transpirando nas cozinhas desde o início da colonização.
O livro é uma compilação de artigos, anotações, frases e fotos que se transformam em sugestões para entender com maior clareza o mapa de nossa culinária, tão rico ao traçar itinerários que podem ligar o sarapatel de tartaruga da Amazônia à carne cruenta dos churrascos gaúchos. Obra de sustância, dessas que nos nutrem de brasilidade.
Interessou-me especialmente o sétimo capítulo, que tem por título O escravo africano. Ensaio encorpado, curioso e elucidativo, abre-se com frase de Joaquim Nabuco: ‘A africanização do Brasil pela escravidão é nódoa que a mãe pátria imprimiu na sua própria face.’ E continua explicando que a partir do século XVI, e por mais dois séculos ainda, africanos foram chegando por aqui, sem mais esperanças de voltar à terra de onde vieram, e morreram, seus pais e avós. Primeiro da Guiné – e por conta disso guiné passou a ser designação genérica, fossem eles nativos de Angola, Moçambique, Costa da Mina, origens dos que em massa embarcaram enganados nos navios que traficavam gente. Aqui aportados, demonstraram possuir cultura superior não só à dos índios, como também à dos próprios portugueses para cá mandados pela Corte, quase sem nenhuma instrução, semianalfabetos na maior parte.
Bem cedo se percebeu que o saber que detinham sobre os alimentos era algo ancestral e na senzala as mucamas iam revelando alguns hábitos da dieta em que haviam se sustentado. Como a predileção por vegetais que os colonizadores chamavam de matos, desprezando-os. O gosto pelo azeite extraído do dendê. O prazer de temperar com pimenta. O jeito de preparar galinha e peixe. E aos poucos, onde o cultivo do milho se impunha, a reelaboração de receitas.
O espaço da cozinha no período colonial era sempre nos fundos das casas e mesmo entre os de posse mostrava-se ambiente a ser evitado pelos brancos e deixado unicamente aos cuidados dos escravos. Assim, enquanto estes mantinham aceso o fogão a lenha, as mucamas iam trazendo aos poucos da senzala pratos africanos para a mesa do senhor. É que o branco, seduzido pelo perfume que exalava pelas frestas, quis experimentar as novidades. Junto às iguarias, iam sendo semeadas palavras como farofa, quibebe, vatapá, mungunzá, fubá... Angu e quiabo.
Quanto ao angu, nosso tema e motivo, tornou-se muito mais que um prato típico, fixou-se como elemento decisivo na formação do nosso país. A mistura de fubá, água e sal não era apenas barata, de preparo rápido e prático, mas também nutritiva e versátil, pois combinava com um número muito grande de acompanhamentos. Se no início era apenas ração na senzala, bem depressa ganhou guarnições e caiu no gosto dos senhores. Débret, em visita ao Brasil, achou o angu ‘iguaria suculenta e gostosa’, descrevendo em pormenores como as negras o preparavam e vendiam nas ruas, acrescentando que ‘essa comida, eminentemente popular, também servia à mesa dos ricos.’
E continuou com este traço até nossos dias, recebendo bem acréscimos conferidos pelos imigrantes italianos que já desenvolviam algo parecido a que chamavam polenta. De consistência variada, mais cremoso em algumas regiões, mais firme em outras, aceita tantos acompanhamentos quantos são os chefs criativos que se dispõem a inovar. Nossa receita de hoje tem por base os mesmos ingredientes de 500 anos atrás, ou seja, fubá, água e sal. É deixar a água com sal ferver e polvilhar o fubá sobre ela, mexendo energicamente para não empelotar. Quando soltar das laterais da panela está pronto. Coloque em forma untada e leve à geladeira até firmar bem. Assim poderá ser cortado com facilidade. Arrematado por shitake ao molho de vinho e quiabo empanado vai muito bem como entrada.
Ingredientes
Angu
1 xícara (chá) de fubá
6 xícaras (chá) de água
Sal, pimenta
Molho e Cobertura
2 xícaras de cogumelos shitake
1 colher (sopa) de manteiga
1 xícara de vinho tinto seco
2 colheres de queijo ralado
Sal, pimenta
Quiabo
½ kg de quiabo
2 ovos
1 xícara de leite
1/4 xícara (chá) de fubá
1/4 xícara de farinha de trigo
Sal, pimenta
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