Vá ‘reclamar ao bispo’


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Durante sua visita ao Brasil – entre os dias 22 e 28 próximos – o papa Francisco deverá ser abordado por protestos promovido pelos grupos que desde o mês passado vêm ocupando ruas, praças e prédios públicos brasileiros, por mudanças.

A informação é da insuspeita ABIN (Agência Brasileira de Inteligência), o órgão de informação do governo responsável pela logística e segurança do programa papal no Rio de Janeiro e em Aparecida (SP). Embora se afirme que as manifestações não serão contra o pontífice, órgãos de segurança e o próprio governo estão cautelosos.

Seria muito embaraçoso o caldo entornar e as autoridades brasileiras terem de reprimir manifestações na presença do líder da igreja que, como de hábito, aparece em público conduzindo mensagens de paz a todos os povos. A repercussão para o País seria a pior possível, principalmente porque essa será a primeira viagem internacional de Francisco, que virá acompanhado de jornalistas e veículos de comunicação de todo o mundo.

Se, de fato, forem ao papa, os manifestantes poderão, no máximo, pedir seu apoio institucional às teses, já que desde o advento da República, em 1889, o Estado brasileiro é laico, separado de Igreja, embora esta tenha sua força institucional.

Fosse no império, os manifestantes encontrariam no bispo – e o papa é o bispo de Roma – uma sede de recurso para seus reclamos. Mas, com o passar do tempo e o afastamento da influência da Igreja nas coisas do Estado, a frase ‘vá reclamar ao bispo’, muito empregada nas décadas passadas, tornou-se símbolo de reclamação inviável, sinônimo de que o reclamante não tem a quem recorrer, pois a autoridade eclesiástica nada pode fazer pela sua causa. E assim parece ser em relação ao papa Francisco.

Em vez de recorrer ao papa, os diferentes movimentos que lutam por mudanças no País não devem se descuidar e concentrar o foco reivindicatório naqueles que possuem condições objetivas de atendê-los através de procedimentos administrativos e, principalmente, de alterações legais.

Por mais boa vontade que tenha e bem impressionado que fique, Francisco não poderia fazer mais do que pedir à presidenta Dilma e, talvez, aos presidentes das casas legislativas, para atenderem o que o povo pede. Nem teria condições reais, e até diplomáticas, de descer a detalhes. Logo, ‘reclamar ao bispo’, de nada adiantará.

Mas, prefeitos e vereadores, esses sim, por estarem mais próximos aos eleitores, podem e têm obrigação de ouvir o povo e, com suas representatividades, forçar os eleitos das esferas federal e estadual – presidente, governadores, senadores e deputados – a tomar atitudes que beneficiem a população descontente e manifestante.

Senadores e deputados, distantes do povo, por exemplo, discutem uma esquisita e embrulhatória reforma política; ainda não votaram a Lei de Diretrizes Orçamentárias e, por isso, não puderam entrar em recesso no mês de julho, mas deram um jeitinho para não trabalhar entre os dias 18 e 31. Isso deveria ser observado com toda a atenção pelos movimentos que querem mudar o Brasil. É preciso cobrar preferencialmente os que recebem nossos votos. Se eles simplesmente cumprirem o que prometem em campanha, o Brasil estará salvo...

Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo

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