Brincando com fogo


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Aparentemente, o Brasil está voltando ao normal. Pelo menos é o que pensam os políticos que, na contramão das manifestações que sacudiram o País no mês passado, passam a agir como sempre: priorizam os próprios interesses em detrimento do bem estar da maioria. Primeiro, foram os episódios dos aviões da FAB (Força Aérea Brasileira), quando os presidentes do Senado e da Câmara, Renan Calheiros e Eduardo Henrique Alves, respectivamente, e o ministro da Previdência, Garibaldi Alves (não por acaso, também primo de Henrique), usaram jatinhos para viagens particulares quando os protestos pegavam fogo. Flagrados, prometeram restituir o dinheiro, num montante abaixo dos gastos reais. Pegou mal para quem (senador e deputado) defendia uma ‘agenda positiva’ para contemplar o clamor dos protestos.

E depois disso, a instalação de uma Comissão na Câmara dos Deputados para discutir e formatar uma proposta de reforma política a ser apresentada para apreciação popular, por plebiscito ou referendo, já começou causando um racha no PT. O partido, que mesmo assim domina o grupo de estudos, já se apresenta com propostas fechadas para contemplar as suas próprias demandas, como financiamento público de campanhas e votação em lista fechada. São teses que o PT defende e que pretende ver implantadas e aprovadas. Por isso, o partido corre a toque de caixa para apresentar uma legislação que seja votada em tempo recorde para que valha já nas eleições de 2014.

Porém, estas duas propostas não contam com aprovação da maioria e prometem ainda criar desdobramentos imprevisíveis. Antes de tudo, é necessário um consenso que hoje não existe. Além disso, nem existe a garantia que acabe valendo o que a Câmara aprovar. Já aconteceu antes, em 2011: uma comissão do Senado apresentou várias propostas para a reforma política que acabaram virando pó na Câmara. Agora pode vir o troco na mesma moeda. Mesmo se o governo resolver intervir, a falta de acordo entre a base aliada nas duas Casas inviabiliza qualquer esperança de que os trabalhos cheguem a bom termo. Ou seja, corre-se o risco de não dar em nada. É difícil acreditar que seja aprovada em dois meses uma reforma que se arrasta há 20 anos.

Os políticos brasileiros estão, hoje, brincando com fogo. Com a ameaça de novas manifestações durante a visita do papa Francisco ao Brasil na semana que vem, vê-se que os legisladores, principalmente, ainda não dimensionaram o tamanho do impacto que os protestos populares terão sobre o futuro de todos os envolvidos. Ao empurrar com a barriga a apreciação da destinação dos royalties do pré-sal para o segundo semestre, ontem, os parlamentares deixam claro que minimizam o impacto das ruidosas manifestações que, antes de tudo, pediram ética na política. O choque de retorno poderá ser imprevisível e, acima de tudo, justo para quem ainda não entendeu (ou não quer admitir) que é o povo quem manda.

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