Quem acompanhou as grandes manifestações de junho por todo o País, reunindo milhões de pessoas, começa a estranhar o relativo silêncio atual. Os protestos organizados na quinta-feira passada pelas centrais sindicais, a maioria ligadas a partidos da base aliada do governo federal, foram aquilo que se viu: esvaziadas, com acordo para poupar a presidente Dilma Rousseff e seu governo de 39 ministérios, suscitando ainda denúncias de que participantes haviam sido pagos para comparecer. Com uma adesão abaixo do esperado pelos organizadores, os atos ganharam destaque pelos transtornos causados ao trânsito com a paralisação do transporte público nas grandes cidades e bloqueios em diversas rodovias brasileiras importantes. Ou seja, foram manifestações fora do contexto e com um viés político que inexistia nas originais.
Aparentemente, quem protestou em junho se sentiu realizado com as respostas às motivações que levaram o povo às ruas. Afinal, depois do grande ato que envolveu mais de um milhão de pessoas em todos os Estados brasileiros, ninguém mais falou nada. A ‘agenda positiva’ criada às pressas no Congresso Nacional para tentar reduzir o volume do clamor popular aprovou alguns projetos, numa verdadeira armadilha, chegando até a reduzir as verbas para Educação e Saúde advindas dos recursos da extração de petróleo do pré-sal. Há uma diferença brutal entre o que se pretendia e o que o Congresso discute (a matéria já foi aprovada na Câmara dos Deputados). Inicialmente, de todos os royalties, seriam 75% para a Educação e 25% para a Saúde. O percentual foi mantido, mas agora sobre um fundo a ser criado que terá uma porcentagem menor do dinheiro arrecadado. Com isso, a meta de chegar a 10% do PIB investido em educação não chegará a 8%. E as estimativas não são anuais: o valor de R$ 200 bilhões a ser dividido contempla o período de agora até 2020. Hoje, só a Educação consome pouco mais de R$ 160 bilhões anuais.
Além disso, outra grande reivindicação seria uma reforma política que tirasse grande parte dos privilégios de autoridades eleitas por voto popular. Entre elas, o fim do foro privilegiado, das mordomias, do voto secreto. A punição dos políticos denunciados ou flagrados por corrupção continua pontuando o coro de vozes insatisfeitas. Nada disso entrou em pauta (o fim do voto secreto chegou a ser discutido, mas já começaram a aparecer emendas criando exceções) e a reforma do sistema político-partidário brasileiro, o maior dos anseios, vai ser definida no Congresso e só depois a população vai aprová-la ou não..
Ou seja, a grande e principal demanda — que é a participação popular nas discussões que se travam em Brasília — ficou de fora. Os políticos é que pretendem decidir como será. Alguém ainda tem dúvida de que os grupos articulados que trabalham dentro do Congresso Nacional vão legislar em causa própria ou dos valores que defendem? Corremos o risco de recebermos para aprovar (ou não) uma legislação ainda mais condescendente e com maior ranço corporativista do que a atual. Os entes políticos, que se assustaram com a movimentação popular, voltam a se acomodar, esperando que tudo acabe não em pizza, mas, como a pífia manifestação de quinta-feira em Franca, em funk.
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