‘Essa cirurgia fará nos sentirmos mulheres de verdade outra vez’


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Edna Lúcia de Oliveira e Fernanda Melo mostram bojos que usam no sutiã enquanto aguardam cirurgia
Edna Lúcia de Oliveira e Fernanda Melo mostram bojos que usam no sutiã enquanto aguardam cirurgia

As poucas semanas que separaram o diagnóstico de câncer de mama e a cirurgia de retirada total do seio foram como um pesadelo para as francanas e amigas Fernanda Melo, 43, Rosane Estevam, 39, e Edna Lúcia de Oliveira, 37. O que há quatro anos a comerciante, a auxiliar administrativa e a dona de casa não sabiam era que suas lutas pelo bem-estar estavam apenas no início. Elas, que se conheceram durante os tratamentos de quimioterapia e radioterapia, continuam unidas até hoje para tentar fazer valer um direito garantido por lei e que até agora não foi respeitado: o de obter pelo SUS a cirurgia de reconstrução da mama. “Sem exagero, essa cirurgia fará nos sentirmos mulheres de verdade outra vez”, afirmou Fernanda. “Damos graças a Deus por estarmos vivas, mas foi tirado um pedaço de nós.”

Em resposta a um ofício expedido pelo Poder Legislativo - que tenta junto ao Estado agilizar o cumprimento da legislação - a DRS 8 (Diretoria Regional de Saúde) informou que até o fim de abril deste ano, nove mulheres em Franca esperavam pelo procedimento, baseadas na lei federal que garante a realização da cirurgia pela rede pública às pacientes de modo imediato tão logo haja condições clínicas.

Por se encaixar como cirurgia eletiva, a espera pela reconstrução da mama costuma levar anos. Nos casos de Fernanda, Rosane e Edna, o procedimento deveria ter ocorrido há pelo menos dois anos. Embora a espera não coloque em risco a vida das pacientes, elas argumentam que este é um direito que possuem e, acima disso, é um passo importante para viverem com algum conforto psicológico, depois da carga dramática provocada pela doença. “Com essa cirurgia, buscamos reconquistar a autoestima. Reconstruir a mama é algo que nos ajudará a viver melhor, com mais paz”, disse Edna. “Meu filho, que na época do tratamento intensivo tinha 4 anos, hoje frequenta psicóloga. Ele chorou a primeira vez em que fui buscá-lo na escola e me viu careca. Não foi algo que afetou somente a mim”, concluiu, com a voz embargada.

Os depoimentos dados por elas revelam força, superação e uma série de adversidades com as quais têm de lidar todos os dias. Mesmo sendo casadas e afirmarem receber todo o apoio dos maridos, Fernanda e Edna explicam como a falta do seio afetou seus relacionamentos. “Meu marido é um companheiro, um confidente. Embora diga que para ele não mudei, eu tenho espelho”, disse Fernanda. “Meu marido também foi meu apoio, mas não adianta, bate insegurança”, completou Edna.

Rosane, que é viúva, também se disse insegura. “Quando tento me relacionar com uma pessoa, já fico me preparando: tenho que falar sobre essa situação. Eu sofro com isso e me afasto. A verdade é que você não se sente bem consigo mesma. A cirurgia iria amenizar esse sentimento.”

SEQUELAS
Existem dois processos de mastectomia: o simples, onde a mama (ou parte dela) e o nódulo são retirados; e o que envolve a chamada linfadenectomia axilar, que é o esvaziamento da axila. Isso significa que os gânglios também são retirados, fragilizando o braço. Fernanda, Rosane e Edna passaram por esse segundo tipo de cirurgia. “Com isso não podemos mais aferir a pressão, tomar vacinas ou picadas de insetos. Também não podemos expor o braço ao calor, mesmo o do sol, pegar peso, fazer esforços repetitivos, arrastar um móvel em casa... Nada disso é mais possível”, relatou Edna.

No dia da entrevista, Rosane estava com o braço bastante inchado. “Esse é o resultado de ter torcido uma roupa. Fiz três vezes fisioterapia e ainda não resolveu. Tenho que fazer meus afazeres em casa. Não tenho quem possa fazer isso por mim.” “Sabemos que a reconstrução não influirá nesses aspectos, mas as dificuldades já são tantas... Por que não amenizar se é um direito nosso?”, afirmou Fernanda. “Por isso tomei a iniciativa de pedir a ajuda do jornal. É preciso tocar nesse assunto, mexer na ferida. E se essa lei vale, eu queria que esse fosse um pontapé inicial para o assunto ser discutido.”

Elas estimam que o valor da cirurgia seria em torno de R$ 10 mil, mas o custo não foi confirmado pela reportagem.

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