‘Pesquisar é brincar com as coisas da realidade’


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Aos 78 anos, o francano Sérgio Henrique Ferreira continua orientando alunos da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto
Aos 78 anos, o francano Sérgio Henrique Ferreira continua orientando alunos da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto

Sérgio Henrique Ferreira. O nome, comum, pode dizer pouco para a população em geral, mas seu dono está longe de ser apenas mais um na multidão. Ferreira é um médico e farmacologista brasileiro nascido em Franca que, através das suas pesquisas, contribuiu para a criação de medicamentos que combatem a hipertensão. Os seus estudos sobre o tema contribuíram inclusive para que o britânico John R. Vane vencesse o prêmio Nobel de Medicina em 1982.

Ferreira viveu pouco em terras francanas. Nascido em 4 de outubro de 1934, ele se recorda de sua casa na Estação, dos trens que ainda circulavam na cidade, e do Empório Higino Caleiro, que ficava naquela região. Com 4 anos, ele se mudou para São Paulo, onde ficou até se formar médico, em 1960. Depois se mudou para Ribeirão Preto, onde mora atualmente. “Só voltei para Franca uma vez, quando era estudante de medicina e fui jogar basquete nos Jogos do Interior em Franca. O que me recordo é que tomamos uma surra desgraçada (risos).”

Foi em meio a muitas risadas a entrevista que o médico concedeu ao Comércio, em sua casa em Ribeirão Preto. Bem-humorado, o estudioso que é referência na área de farmacologia, revelou que aborda o estudo científico de uma forma lúdica. “Sempre olhei a pesquisa como uma forma de brincar com as coisas da realidade, e fazer perguntas que aquela época poderia me responder. Se ela não respondesse muito, eu mandava para o inferno (risos).”

Hoje, aos 78 anos e aposentado, ele atua como orientador de pesquisas realizadas na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto. “O caminho óbvio não é tão óbvio assim. A ciência, no fundo, não termina nunca porque sempre vai haver uma pergunta que você quer responder”, disse.

Sua visão questionadora também se estende para a política. Declaradamente de esquerda, ele comemorou a onda de protestos vivida no Brasil desde o início do mês passado. “Eu e a minha mulher [a também pesquisadora, mas de psicologia, Maria Clotilde Therezinha Rossetti Ferreira] queremos ser os moleques que sempre fomos, saber conversar com os jovens de hoje e saber brigar junto com eles.”

ESCOLHAS
Sérgio parecia predestinado a seguir carreira na área da saúde. Seu padrasto era médico e sua mãe, farmacêutica. Como seus familiares recebiam muitas amostras de medicamento, Sérgio Ferreira, aos nove anos, utilizava-os em seus primeiros “pacientes”: os cachorros. “Alguns deles escapavam, outros não”, disse, às gargalhadas. Além da influência familiar, a raiva ao se sentir desafiado por um estudante de medicina também o motivou a trilhar o caminho da área médica. “Estava no ensino médio e falei que ia ser médico para um estudante de medicina, mas ele me disse que eu nunca ia entrar. Pensei: ‘Desgraçado! Eu vou entrar na faculdade sim!’. Aí, comecei a fazer cursinho e o regular ao mesmo tempo, e entrei de primeira na USP. Um belo dia, aquele estudante me encontrou andando lá na medicina e me disse: ‘O que você está fazendo aqui?’. Aí eu ri na cara dele e disse: ‘Entrei em medicina’”, disse.

A DESCOBERTA
Depois de se formar na USP de São Paulo, Sérgio foi para Ribeirão Preto para trabalhar no Laboratório da Faculdade de Medicina da USP, chefiado por um dos maiores pesquisadores do Brasil, o médico Maurício Oscar da Rocha e Silva. A possibilidade de aprender com Rocha e Silva foi um dos principais motivos para fazer Ferreira se mudar para Ribeirão. “Me falaram que eu não iria aguentá-lo mais que dois anos, porque o Rocha e Silva era uma pessoa difícil”, disse Sérgio. Rocha e Silva havia descoberto a existência de uma enzima chamada bradicinina em 1948, que era formada pela mistura do veneno de jararaca com plasma (parte fluida do sangue) de cachorro. Se injetada em animais, a bradicinina causava hipotensão, ou seja, baixava a pressão arterial. Quando Sérgio chegou ao laboratório, o momento era de entusiasmo: havia sido produzida, na Europa, a bradicinina sintética, que era sólida, na forma de um pó. No entanto, ela era mais fraca do que a feita com o plasma. “Nesse instante, eu percebi que, dentro do plasma ou do veneno da jararaca, deveria ter alguma coisa que potencializava a bradicinina e amplificava os seus resultados”, conta.

Essa “coisa” que Sérgio encontrou no veneno da jararaca era um peptídeo (molécula formada pela ligação de dois ou mais aminoácidos) que ele chamou de “fator de potenciação da bradicinina”, ou BPF. “Injetei o fator potenciador, já purificado, do veneno da jararaca em um cachorro e não aconteceu nada. Aí, injetei a bradicinina junto com o fator, e os níveis da pressão despencaram. O Maurício [Rocha e Silva] me falou que havia sido o melhor experimento que nós havíamos feito no dia. Eu tinha tanto medo dele, que nem orgulhoso eu fiquei na hora (risos). [A descoberta] foi rabo de moleque (sorte). Quando o moleque começa a vida, ele tem que ter um pouco de rabo, senão ele está frito”, diz.

APERFEIÇOAMENTO
O Golpe Militar de 1964, “que fez a desgraça de muita gente”, segundo Sérgio, acabou “empurrando-o” para o exterior. Ele foi para a Inglaterra no ano seguinte para trabalhar com o farmacologista John R. Vane. Sérgio morou no país entre 1965 e 1967 e, depois, de 1970 a 1975. Nessa época, ele aprofundou seus estudos. Um dos tópicos investigados foi o peptídeo angiotensina. “Você tem angiotensina I e II. A angiotensina I se converte em angiotensina II, ou seja, é dividida em pedaços menores, e a angiotensina II causa hipertensão. Eu fui ver o que essas substâncias faziam em animais. O BPF potenciava a bradicinina e inibia a conversão da angiotensina I em II. Os estudos de Ferreira permitiram a criação de medicamentos que combatem a hipertensão: os Inibidores da Enzima de Conversão da Angiotensina (IECAs). “Essa ideia de ter feito alguma coisa é agradável. Porra, fiz alguma coisa nesse Brasil ou nesse mundo”, diz Sérgio.

PRÊMIOS
Sérgio Ferreira coleciona premiações e condecorações. Em 1995 ele foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico pelo então presidente do Brasil Fernando Henrique Cardoso. Entre seus principais prêmios, destaca-se o “Ciba for Hypertension Research”, da American Heart Association, dos Estados Unidos, em 1983.

O brasileiro não foi indicado ao prêmio Nobel de Medicina de 1982, que foi para o pesquisador John R. Vane, mas vale registrar que ele trabalhou nos grupos de pesquisa de Vane na universidade Royal College of Surgeons of England e na empresa The Wellcome Foundation.“O John Vane foi indicado pelo conjunto da obra dele, que envolve várias pessoas de vários países. Os diversos estudos que fizeram ele ganhar o Nobel estavam ligados a substâncias biológicas que você poderia retirar do plasma animal. Ele estudou essas várias substâncias e os fenômenos relacionados a elas, e uma delas era a angiotensina”, afirmou Sérgio. Ele tem dois prêmios que levam seu nome: o primeiro, o Ferreira Award da Sociedade de Hipertensão Norueguesa, foi criado em 1990 para pesquisadores que se sobressaíssem na área de hipertensão. O outro, “Prêmio Sérgio Henrique Ferreira de Pesquisa com Inibidores da Enzima Conversora da Angiotensina”, foi instituído pelo Laboratório Servier em maio deste ano.

Entretanto, mesmo com tal currículo, Sérgio Ferreira afirma não se “importar” com os prêmios batizados com o seu nome. “Nem prestei atenção se o prêmio [do Servier] era no meu nome ou se não era. Ligo mais para o Corinthians do que para isso (risos)”, brincou ele. “Na verdade, fico contente de ter um prêmio no meu nome porque ele dará visibilidade para aquilo que a universidade faz. Mas não é algo que me empolga para o resto da vida. Quem me empolga para o resto da vida é a minha mulher. Se não me empolgar [com ela], eu morro”, disse.

SAÚDE
Em 1975, Sérgio voltou para o Brasil. E, como todo bom filho, ele retornou para casa. No caso, ao laboratório da Faculdade de Medicina da USP, ainda dirigido por Rocha e Silva. Uma das pesquisas que ele desenvolveu nesta nova fase, iniciada ainda na Inglaterra com Vane, foi a dos estudos de analgésicos como a aspirina. “Desses estudos não surgiram outras substâncias analgésicas, mas surgiu o conhecimento de como elas funcionavam”, afirmou.

De 1989 a 1990, ele passou a ter contato mais direto com a saúde pública do Brasil como diretor do INCQS (Instituto Nacional de Qualidade em Saúde) - e não gostou do que viu. “O sistema de controle de medicamentos no Brasil era uma bomba. O Instituto não deveria só avaliar o que iria para o mercado, mas também fiscalizá-lo. E a fiscalização que existia não era de qualidade”, criticou. No entanto, a sua saída da diretoria do órgão não teve a ver com a sua deficiência, e sim, com a vontade que Sérgio nunca perdeu de querer fazer pesquisa.

Não é só o controle de medicamentos que é alvo das críticas de Sérgio, mas sim o sistema público de saúde do Brasil como um todo. “Não existe uma visão de saúde pública no Brasil coerente. Ninguém pensa: ‘vou fazer isso nos próximos dois anos, ou nos próximos cinco anos vou fazer com que a minha população não tenha determinadas doenças’”, diz.

Hoje, Sérgio vive com a sua mulher Clotilde numa casa espaçosa, com um grande jardim e paredes repletas de obras de arte, que foram pintadas ou presenteadas por amigos. O casal tem três filhos: Fernando, o mais velho, que vive em São Paulo; Marcos, que mora em Goiás; e Beatriz, a caçula, que reside em Ribeirão Preto também. No seu tempo livre, Sérgio gosta de assistir a filmes e usar o computador, geralmente para ouvir sons de pássaros.

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