As manifestações populares durante o mês de junho trouxeram à tona algumas verdades que teimávamos em não ver. O Banco Central reconheceu no seu último Relatório de Inflação, divulgado no dia 26 de junho, que a alta dos preços segue em deterioração, além de apresentar um “alto índice de dispersão”. Depois, vem a sobrevalorização cambial, causadora de várias distorções na economia, mas que, premida pelos últimos números da balança de pagamentos, parece estar indo embora. O Grupo “X”, do Sr. Eike Batista, patrocinado pelo BNDES para ser um dos “campeões nacionais”, foi à lona depois de 55 comunicados à praça, informando que tudo estava no melhor dos mundos. A queda na produção de alimentos, como o tomate há pouco, volta a pressionar os preços. Essas situações revelam que há incertezas no horizonte.
Medidas intempestivas tomadas pela Presidência da República no começo do ano determinaram uma diminuição na tarifa de energia elétrica da ordem de 20%. Depois de muita celeuma e de muitas reuniões técnicas entre Governo e empresas concessionárias sobre custos e prazo de concessões, a tarifa foi, finalmente, reduzida. O efeito dessa “benesse”, no entanto, foi pequeno (5% em média) e durou pouco. Na realidade, o setor carece de um re-planejamento do seu futuro, a ser feito com profundidade e amplitude de tempo e de alcance, capaz de restaurar-lhe efetivas e saudáveis condições de sobrevivência, ao mesmo tempo em que atua como suporte ao desenvolvimento do País.
Ao longo dos últimos anos, deixamos ao sabor das circunstâncias a realização de investimentos em infraestrutura e máquinas e equipamentos. No segundo trimestre deste ano, problemas de mobilidade e de acesso aos portos para a exportação da safra de grãos estiveram e estão na ordem do dia, obrigando os caminhoneiros a enfrentar essa precariedade todos os dias. Pelos números das Contas Nacionais, a formação bruta de capital, que mede a capacidade produtiva futura por meio do investimento, anda por volta de 20% do PIB. Nossa competitividade industrial segue baixa. Os problemas vão desde o custo dos insumos, inclusive mão de obra, até a taxa de câmbio. Quanto às inovações, o déficit é gigantesco. Tudo isso torna a rentabilidade improvável.
Para completar o quadro traçado acima, é interessante mencionar dois fatos importantes: competência de gestão e sensibilidade. O Governo Federal não mostra essas virtudes, fato que o compromete em sua plenitude, deixando-nos sem esperanças de que as coisas possam melhorar no curto prazo. A falta de confiança no Governo é grande e, para seguir adiante, ele precisa reconquistá-la. A insensibilidade em não perceber o verdadeiro clamor das ruas e a incapacidade de fornecer as respostas que o povo quer, sem manobras diversionistas, só aumenta o problema.
No inicio do ano havia sido previsto um crescimento do PIB da ordem de 3% (os mais otimistas falavam em 3,2% ou mais) e inflação sob controle. Quanto ao crescimento do PIB, só temos incertezas. Quanto à inflação, vamos ficar mesmo é próximo dos 6,5%. Crescer e modernizar-se – as necessidades fundamentais da economia brasileira – ficam para depois.
Vicente P. Oliveira
Economista
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