Nem bem a voz popular deixou de reverberar e a classe política brasileira começa a trabalhar como sempre fez: alheia às vontades dos que a elegeram e mirando os seus próprios interesses. Um dos grandes clamores dos brasileiros durante as manifestações que arrastaram milhões para as ruas em junho, a ampla reforma do sistema político brasileiro poderá ser formatada e decidida pelos próprios políticos, sem que o eleitor tenha a chance de opinar. Pois vejam: líderes partidários afirmaram na terça-feira, 9, que a maioria da Câmara quer aprovar uma proposta de reforma política sem realizar plebiscito. A ideia é submeter um projeto fechado aprovado no Congresso a um referendo popular.
Após reunião de líderes, o presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB), descartou a realização de um plebiscito da reforma política que valha para as eleições de 2014. Ele anunciou a criação de um grupo de trabalho para elaborar o projeto de reforma e disse que a proposta poderá ser submetida posteriormente a um referendo, a ser realizado durante as próximas eleições. Ou seja: quaisquer mudanças passarão apenas pelo crivo dos deputados e, no final, caberá ao eleitor dizer se aceita ou não. É querer passar ao brasileiro o recibo de trouxa.
Como sempre, os políticos buscam preservar privilégios, passando ao largo dos maiores anseios dos brasileiros: transparência, seriedade e honestidade no trato da res pública. Nada disso vem sendo considerado. O líder do PMDB na Câmara, deputado Eduardo Cunha, apresenta uma singela explicação para a mudança: ‘o partido prefere que o grupo de trabalho elabore o projeto de reforma, em vez de haver um plebiscito sobre o assunto’. Segundo ele, o PMDB só aceitaria essa forma de consulta popular se fosse realizada no segundo turno das eleições de 2014 ‘para poupar gastos’. Risível. Ou melhor, ridículo. Aliás, não foram membros do partido que utilizaram jatinhos da FAB para viagens particulares, sem a preocupação de poupar gastos, comprometendo-se a pagar um valor ínfimo para uma despesa quase dez vezes maior, mesmo assim só depois da imprensa denunciar? Não é um senador do partido (Renan Calheiros) que considera ter o ‘direito de representação’ ao esbanjar mordomias?
Passado o verdadeiro tsunami que varreu as ruas do País, os legisladores começam a brincar com fogo. Plebiscito ou referendo, não importa. O brasileiro foi às ruas exigir os seus direitos de eleitor e cidadão, patrão que é de todos os ocupantes de cargos públicos (eleitos ou não). O brasileiro quer participar e influir no panorama político atual. Exige mudanças que privilegiem a qualidade e não a quantidade. Quer ver seus impostos cada vez mais financiando serviços de saúde e educação que funcionem e cada vez menos remunerando uma máquina inchada (mais de 20 mil servidores federais nomeados em razão de acordos políticos) e um batalhão de legisladores, além de escoar pelo ralo da corrupção. Enfim, o brasileiro quer que os políticos trabalhem para a Nação e não em favor de seus próprios interesses. Porém, do jeito que a coisa está andando, continuamos esperando por algo que não tem condições de se realizar. Ou seja, uma utopia.
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