O desejo de compartilhar a vida e a casa com crianças de lares desfeitos é algo antigo na história da funcionária pública Valéria Cristina Rogério, 45. Da infância, ela diz trazer na memória um episódio em que pediu aos pais irmãos adotivos, embora já tivesse dois biológicos. “Eu não sei de onde vem esse sentimento”, resume, ao tentar explicar a motivação que a faz planejar outros dez filhos, além dos quatro que já possui - um deles adotivo.
Ao lado do marido, o policial militar Ronaldo Rogério, ela integra o programa Família Acolhedora e, aos fins de semana, leva para seu convívio as crianças que vivem no Recanto do Aconchego, onde o casal também é voluntário (leia mais ao lado).
“Um dia, perguntei a Deus o por quê de ter me dado essa sede de ajudar se eu não tenho condições de cuidar e acolher definitivamente todas essas crianças. Depois da oração, dormi e sonhei com uma mulher me dizendo que eu teria 14 filhos. Eu respondi que não havia condições e, neste momento, um médico entrou no sonho e disse: ‘você não tem condições hoje. Deus ainda vai te dar mais dez filhos, mas no tempo Dele’”, conta Valéria. “Isso, para mim, foi uma profecia.”
Divina ou não, a sensibilidade materna despertou cedo em sua vida. Antes mesmo de atingir a maior idade, Valéria passou a fazer, no quintal de sua casa, no alto do Boa Vista, caldeirões de sopa que distribuía para as crianças que encontrava pelas ruas. Quando a iniciativa pareceu já não ser o bastante, começou a frequentar o Lar São Vicente de Paulo, que até o fim dos anos 80 abrigava crianças além de idosos. “Quando surgiu o Estatuto da Criança e do Adolescente tudo mudou e, logo no início, a Casa do Aconchego [instituição que passou a abrigar as crianças] não permitia visitas. As coisas melhoraram quando surgiu o programa Família Acolhedora. Nos inscrevi e há 12 anos fazemos parte.”
O casal integra o Família Acolhedora e é voluntário no abrigo para crianças vitimizadas. Assim, eles não apenas as levam para casa como promovem eventos e atividades recreativas para animar as crianças dentro da instituição. “Convidamos os amigos e já levamos sorveteiros para as festinhas de lá, por exemplo”, conta Ronaldo. “Quando crianças, tanto ela quanto eu, tivemos uma vida de restrições no que diz respeito a bens materiais. Isso fez com que aprendêssemos a nos desprender da materialidade e a compartilhar melhor o pouco que tínhamos.”
A lição aprendida é passada às novas gerações. Os filhos mais velhos - militares como o pai -Ronaldo Júnior, 22, e Ricardo Antônio, 21 - ajudam de modo efetivo na acolhida dos pequenos. “Como já possuem carro e autonomia, me ajudam a buscar as crianças, correr atrás de documentos e papelada para podermos recebê-las...”, afirma Ronaldo. “O João Daniel, de 16 anos, animou a festinha de um ano que fiz para uma das crianças do abrigo. Já a Maísa, de 13, as convidou para seu próprio aniversário”, completa Valéria.
A SAUDADE
Essas “idas e vindas” das crianças acolhidas e que se tornam importantes deixam marcas ambíguas na vida de Valéria. Isso ficou evidente através do sorriso terno e saudosista que esboçou ao falar sobre as histórias de cada criança com a imagem eternizada nas fotos que esparramou sobre a mesa de sua sala. “Esse vinha para cá todos os fins de semana... Fico feliz que ele tenha voltado para a família, mas chorei muito quando teve que ir embora”, disse, emocionada. “Eu já falei que nunca mais iria trazer essas crianças para casa, mas, graças a Deus, eu não cumpri isso. É mais um desabafo.”
O laço que fica é tão forte que, hoje, após 29 anos desenvolvendo este trabalho de acolhimento, ela ainda mantém contato com as crianças, que cresceram. No dia das mães, por exemplo, os “presentes” são muitos. “Minha alegria é vê-los me visitando. Quando não dá, porque nem todos estão em Franca, eles me ligam. Tenho 45 anos e ‘filhas’ de 35, que me chamam de mãe. Como comecei muito cedo, esses dez anos fizeram diferença: se eu tinha 17, elas tinham 7”, disse ela.
Revirando a memória ativada pelas fotos, os olhos de Valéria ganharam novo brilho, como se se lembrasse do que a motiva a continuar, apesar das separações. “Há alguns anos, assistindo ao programa Ação, do Serginho Groisman, vi que um casal alemão estava adotando uma menina brasileira. Quando a filmaram, eu caí no choro. Era uma garotinha que eu costumava olhar. Fiquei emocionada de ver que ela estava conseguindo uma família”, disse. “Fica a saudade, mas essas crianças precisam de carinho, de uma referência para não acharem que a vida é só abandono.”
O PROGRAMA
O Família Acolhedora existe desde 1998 e foi criado em Franca para atender crianças e adolescentes afastados de suas famílias de origem por medidas protetivas. O programa conta com voluntários para recebê-los em suas casas. Hoje são 38 cadastros. O grupo é dividido em Família de Apoio e Família Eventual. Enquanto a primeira categoria recebe em casa a criança e/ou adolescente por tempo indeterminado, a segunda assume essa responsabilidade a curto prazo, como em feriados, férias e fins de semana. “É importante ficar claro que o acolhimento não é um atalho para a adoção”, ressalva a assistente social do projeto, Carla Prazeres.
Os interessados em participar do Família Acolhedora precisam efetuar seu cadastro. Para isso, devem entrar em contato com a coordenação pelo telefone 3711-9313 para agendar entrevista. “Nesta etapa aproveitamos para sanar todas as dúvidas e evitar equívocos. Solteiros também podem se candidatar”, disse Carla.
Após um trabalho de capacitação, os candidatos são submetidos a uma avaliação técnica que inclui visitas domiciliares realizadas por psicólogo e assistente social. Também é necessário o preenchimento de um questionário e a providência de uma lista de documentos que inclui atestados de saúde física e mental. “Nós juntamos a documentação apresentada à avaliação técnica da nossa equipe e enviamos ao Poder Judiciário. O juiz então realiza uma pesquisa de antecedentes cível e criminal e, estando tudo certo, a liberação para o acolhimento da criança acontece.” De acordo com Carla, todo o processo dura, em média, quatro meses.
É válido ressaltar que as crianças são retiradas dos abrigos mediante um termo de guarda expedido pela Justiça.
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