Ano passado, falei aqui com vocês sobre o Festival Gastronômico de Tiradentes depois que ele tinha acontecido, falei apenas dos reflexos, até porque ano passado a comitiva mineira foi convidada para expor em Madrid, o que foi um grande acontecimento. Esse ano falo dele antes que aconteça. Assim, quem quiser ir que se programe, lembrando que as inscrições para as oficinas e palestras são feitas presencialmente um dia antes.
Bem, esse ano o projeto expedicionário do festival continua, para quem não se lembra, alguns chefs de cozinha vão a campo, selecionando pratos típicos de determinadas regiões, procura-se por originalidade e por identidade, prestigia-se o produto e sua essência. Paraná, Mato Grosso, Rio Grande do Sul, São Paulo, Bahia e o Distrito Federal são os 9 estados escolhidos desse ano.
E mesmo antes da volta dos expedicionários algumas coisas interessantes já foram divulgadas, principalmente em se tratando do Paraná, que parece meio espremido entre nós e o começo do Sul do país. O Barreado, claro, é que nos vem à mente: prato típico do Paraná de influência portuguesa - é bem próximo do cozido, essência da comida portuguesa. A simplicidade desse prato é evidente: carne, caldo, farinha, banana. Mas há que se olhar com atenção ao gosto, o caldo grosso e saboroso só se mostra após longas horas de cozimento (mais ou menos 20 horas!) em panela de barro. E daí tem toda a mítica sobre aquela panela. Eu que sou apreciadora de caldos e farinhas e mesmo tendo nascido no Paraná, não sou apaixonada pelo Barreado. Acho que a carne toda desfiada leva a uma consistência de sopa. A mim parece que os pedaços íntegros da carne, absolutamente macios, desafiam melhor a técnica e os dentes.
Mas no festival desse ano o que me chamou a atenção foi o churrasco de ostras, isso mesmo. Na ilha Superagui, situada naquele Estado, existe um único restaurante, conhecido como restaurante do “Seu” Lopes. Por lá é possível experimentar uma mostra do que seja a culinária caiçara legítima. Os quitutes servidos na casa/restaurante são pescados ali, numa baía de frente ao restaurante.
Essas ostras são deixadas na água salgada, segundo “seu” Lopes o segredo é não deixar que entre nelas água doce e/ou barro. São assadas em um fogão à lenha e servidas com limão. Fico pensando na multicultura brasileira em todos os seus aspectos, jamais identificamos as ostras como comida brasileira: mais fácil pensar nas suntuosas bacias de prata com gelo e ostras, sensualmente arranjadas, lá pros lados do Mediterrâneo. Mas não, é daqui também.
Outra influência culinária no Estado do Paraná (por nós esquecida) é a ucraniana. A expedição aportou num famoso bar reconhecido pela qualidade dos quitutes ucranianos servidos, o local se chama Barbaran. A sopa de beterrabas com nata, conhecida por Borscht - nunca experimentei. O Varenek é uma espécie de pastel cozido recheado com batatas e raiz forte: olha isso, um gyoza! O típico pastel japonês que tem como parente próximo também o ravióli italiano! Pergunto: há quanto tempo mesmo conhecemos a raiz forte? Faz quanto tempo que deixamos de fazer caretas ao experimentar aquelas bolinhas verdes cor de pistaches? Bem pouco, né. É sensacional conhecer esse tráfico de produtos e receitas. Outra tradição nada exótica, mas diferente da gente, é o consumo do pão preto com embutidos de porco.
O objetivo do festival, com o término da expedição é levar toda essa riqueza ao nosso conhecimento, conhecer talvez “as gentes” que no dia-a-dia estão dispostas a manter viva a história de seus vilarejos, cidades. Afinal, antes de serem escritas, as histórias passam primeiro pela boca.
ERRATA
Essa semana utilizarei essa tira para me desculpar por um erro cometido na semana passada. Utilizei impropriamente a denominação feijoada completa. Tal denominação é técnica, dada pelo próprio escritor Câmara Cascudo e significa a feijoada que contenha verduras e carnes. E essa feijoada não tem a sua origem no escravo, apenas a sua contribuição. Melhor seria eu ter utilizado a denominação feijoada rústica: feijão preto, pés e orelhas de porco. Essa sim pode ter vindo dos escravos.
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