Aparecida Carneiro Borini foi uma Mulher, dessas com M maiúsculo. O tipo que não ouvia desaforo de marido, em uma época em que a separação era inconcebível. Criou cinco filhos desde os 21 anos, devendo este verbo – criar – ser entendido aqui nos seus mais diversos significados: conceber, amamentar, alimentar, educar e garantir a sobrevivência.
Dona Cida foi uma mulher forte, que batalhou por uma vida mais digna e conseguiu. Seus filhos contam às gerações mais novas histórias de como ela percorria longas distâncias, a pé, para trabalhar exaustivamente em diferentes casas de família e conseguir se sustentar.
Cidinha era ativa e dadivosa. Até seus 85 anos, quem chegasse ao seu apartamento a encontraria cozinhando aquela comidinha, assando um bolinho para seus amigos, costurando uma colcha de retalhos para o asilo “dos velhos”, ou um pijama para as crianças carentes. E, se lá não estivesse, era certo que ao supermercado tinha ido, porque “a Coca-Cola acabou”.
Todos eram bem-vindos. Viveu mais de 20 anos no mesmo prédio, no centro da cidade, onde cumprimentava seus vizinhos no elevador e era conhecida por todos – de crianças a adultos. Também conhecida era na Catedral, por qualquer que fosse o padre a rezar a missa, pois lá estava, às 17h, todo sábado. Da mesma forma parecia bater cartão na feira toda quinta, para garantir as frutas, carnes e doces da semana.
Era teimosa. Se não estava feliz, se sentia independente e jovem para sair por aí, pegando ônibus ou pedindo carona. Mas foi feliz, notavelmente feliz. Não perdia um aniversário e se emocionou na grande festa de comemoração dos seus 80 anos. Dançava e não se continha ao som de Julio Iglesias. Dizia que se ele a aceitasse, fugia e casava, sem pestanejar.
Ela era mãe, irmã, tia, avó e bisavó. E sabia sê-lo por completo. Esbanjava saúde. Há cinco anos aguentou mais de dez horas de voo para ver a filha que se mudara para Nova Iorque. Encarava cinco horas de estrada em quase todos os feriados para ver a filha e a neta que moram longe. E diariamente recebia a visita dos demais filhos, netos e bisnetos, que cuidaram, ajudaram, abraçaram e beijaram a mulher de cabelos brancos mais querida da família.
Viveu para amar. Viveu sendo amada. Ainda é. E sempre será.
A missa será celebrada hoje, dia 6 de julho de 2013, às 19 horas, na Catedral.
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