As manifestações – garantidas pela Constituição – que tomaram as ruas de várias cidades brasileiras lembram os movimentos revolucionários de 1968, a ‘Passeata dos 100 dias’, pelo fim da ditadura militar; 1984, as ‘Diretas Já’, pelas eleições diretas; 1992, os ‘caras pintadas’, pedindo o impeachment do presidente Collor. Fazem parte da democracia, e, cedo ou tarde, iriam acontecer de novo. O aumento de R$ 0,20 nas passagens de ônibus em São Paulo foi a gota d’água que faltava para a população descruzar os braços e lutar por direitos. Esses poucos centavos pode parecer pouco, mas em um país onde falta educação, saúde e transporte de qualidade, qualquer acréscimo faz muita diferença no orçamento do trabalhador ao final do mês.
A euforia social, inspirada no ‘Movimento Passe livre’, gestado em Florianópolis (SC), que defende a estatização das empresas de transporte e a gratuidade das passagens - o que não concordamos - vem percorrendo outras cidades brasileiras. Na abertura da Copa das Confederações, em Brasília, a população foi às ruas pedir mais investimentos em saúde, educação, transporte, entre outros. O movimento ‘Copa prá quem?’ questiona os gastos do Brasil na Copa das Confederações e na Copa do Mundo e já tem apoio de brasileiros residentes em outros países como Irlanda, Canadá, Estados Unidos e Alemanha.
Agora temos a convicção de que o povo brasileiro está descontente não somente com o aumento das passagens de ônibus, mas também com a realidade da corrupção, que se tornou rotineira; com o sucateamento dos serviços públicos, que oferecem péssimo atendimento ao cidadão; com a excessiva carga tributária, que corrói grande parcela da renda familiar; e que onera o preço final dos produtos e estimula a inflação. Os brasileiros não aguentam mais o fruto de gestão não profissional, tocada por pessoas que não possuem conhecimento técnico-cientifico para tal missão. O resultado é este que vemos todos os dias: pessoas morrendo nas filas dos hospitais a espera de atendimento, transporte público a beira do colapso, escolas sem estrutura e professores mal remunerados e preparados, inflação, alta nos juros, insegurança, entre outros problemas cotidianos.
É perceptível a ausência de gestão, inclusive, nas manifestações que estão ocorrendo em todo o país. Diante da crise, governos atrapalham-se na hora de tomar atitude, mostram-se, intolerantes aos movimentos e a polícia, aparentemente despreparada, parte para a violência excessiva provando, mais uma vez, que inclusive a segurança é vítima da má gestão, em todos os níveis.
Não somos contra a realização de grandes eventos no país – Copa do Mundo, Olimpíadas, Copa das Confederações. Não concordamos é com obras superfaturadas, descaso com as finanças públicas, indefinição de prioridades, gestões amadoras, só para citar algumas práticas rotineiras. Estamos cientes de que, quando bem planejados e bem administrados esses eventos geram empregos, investimentos, movimentam o turismo interno, fazem a economia crescer e deixam legado positivo para as futuras gerações. Entretanto, não basta ter estádios com padrão internacional. O Brasil precisa, desesperadamente, de hospitais e escolas de primeiro mundo, por exemplo. E se a coisa está precária nas principais capitais do País, imagine no interior, nos rincões do Brasil esquecidos pelo poder público.
É entristecedor esta situação, mas desejamos que as manifestações possam, de fato, motivar os gestores públicos a promover as mudanças que o brasileiro deseja. E essa transformação começará, indubitavelmente, quando o Brasil acordar para a necessidade de repensar a sua gestão. Quando o País for administrado por profissionais qualificados e habilitados, aí sim começaremos a ver a revolução que nós, cidadãos, almejamos.
Sebastião Luiz de Mello
Presidente do Conselho Federal de Administração (CFA)
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