Em 1974, o norte-americano Richard Nixon foi obrigado a renunciar para não ser o primeiro presidente dos Estados Unidos a ter o mandato cassado. Três anos depois, após todo este período em silêncio, concedeu uma entrevista (retratada no filme ‘Frost x Nixon’), onde afirmava que o presidente de um país não é um cidadão comum que deva se submeter às leis. Sua posição assustou até o entrevistador, David Frost. Porém, quase quarenta anos após, há ainda políticos que se consideram acima do cidadão comum e suas atitudes deixam transparecer isso. Depois que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva apontou o senador José Sarney (PMDB) como integrante de uma categoria acima do bem e do mal (mesmo diante das denúncias que vinha recebendo na época) e vários outros episódios onde o brasileiro ficou com cara de palhaço, agora vem o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), colocar mais uma cereja neste bolo indigesto.
Enquanto o presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves (PMDB), mandara ressarcir aos cofres públicos mais de R$ 9 mil referentes a passagens aéreas, depois de utilizar um avião da FAB (Força Aérea Brasileira) para levar familiares à final da Copa das Confederações, no Rio de Janeiro, Calheiros se recusa a seguir o colega de Congresso ao dizer que ‘tem o direito de representação’ de utilizar o mesmo tipo de transporte, aliás, bancado pelo dinheiro do contribuinte. Ele utilizou a aeronave da FAB para ir ao casamento da filha do líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB), na Bahia. Com isso, se acha acima da maioria dos trabalhadores brasileiros, que bancam suas viagens e suas despesas. É bom dizer que o Senado (ou seja, o contribuinte) paga cerca de R$ 12 mil por mês só para o mordomo que o serve em Brasília.
Renan Calheiros, com sua atitude, coloca mais lenha na fogueira das manifestações que abalaram a classe política brasileira ao longo do mês de junho e que continuam pipocando neste início de julho. Afinal, a população deixou claro que não aceita mais a atitude de certos políticos que usam a função pública como privada fosse, sem precisar dar satisfações a qualquer pessoa. Todo político é obrigado, sim, a se submeter a quem lhe deu o mandato, através do voto. Parece que o clamor das ruas não está sendo levado em conta por quem deveria estar com a pulga atrás da orelha.
Um velho axioma, que comumente é usado em relação aos políticos e seus mandatos, e que também pode ser aplicado em todos os setores, diz que nem tudo o que é legal é moral. É o que vemos neste caso. Mesmo com a prerrogativa do cargo, Renan Calheiros deveria, antes de tudo, levar em consideração o cotidiano do cidadão brasileiro. Detentor (ainda mais como presidente do Senado) de uma série de benefícios que não são extensivos à grande maioria da população brasileira, seria imperioso colocar a mão na consciência e pôr em prática o que está pedindo o povo nas ruas: a moralização do Congresso. Ao defender uma ‘carteirada’ imoral, demonstra que não entendeu o recado das multidões ou então carece de um mínimo de vergonha na cara.
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