Maria Antônia, a Mara, para os colegas de trabalho, era funcionária de destaque na repartição do Estado. Muito mais pelo seu jeito franco e às vezes até indiscreto no trato com o público e com os colegas. Era assídua, cumpria com presteza as suas tarefas, mas não aceitava que outros não fizessem o mesmo. Dava broncas sem nenhum receio, sustentando-se apenas na sua postura impoluta. O Chefe, um sujeito timorato, já para além dos cinqüenta anos, vivia contando os dias que faltavam para a aposentadoria. Por isso mesmo a tratava muito bem. Até porque ela não poupava nem mesmo ele das críticas francas, cruas, inexoráveis. A única coisa que a deixava inibida eram as conversas que envolviam relacionamentos conjugais. Sempre lhe faltava assunto. Nessa parte a sua vida era um mistério. Era mistério, mas constituía assunto predileto para conversas reservadas dos colegas na sua ausência. Havia até certa dúvida sobre suas preferências sexuais. Não por preconceito propriamente. Todo o problema residia na dúvida que deixava os colegas inseguros quanto à distância que deveriam manter dela em tais assuntos. Não era feia. Vestia e se arrumava com discrição e tratava a todos com natural compostura. Em certas ocasiões parecia demonstrar simpatia por certos usuários dos serviços da repartição, o que acabou por suscitar especulação de que tinha queda por homens mais velhos. Mas nada que permitisse conclusões definitivas. O fato de já ser madura e nunca ter apresentado um namorado à turma era o contraponto. Na opinião do Chefe, a moça sofria de timidez específica em relação ao namoro. Essa sua conclusão foi externada logo após uma festa de aniversário que reuniu todos os servidores, em que ele bebeu algumas cervejas a mais. Nesse dia festivo, em razão das cervejas, o Chefe logo começou a ir ao banheiro com mais freqüência. E foram tantas idas e vindas que numa delas acabou voltando com o zíper das calças arriado. Por marota coincidência, só as mulheres notaram. E nenhuma teve coragem de avisá-lo do descuido. Nenhuma também tinha intimidade suficiente com os demais varões para usar um deles para avisar ao infeliz. Mara, no entanto, logo que notou o deslize, botou-lhe um dos braços nos ombros foi direta: “anda com calor, hein chefinho!” O homem encarou-a intrigado com a súbita aproximação e abraço. Imperturbável, ela completou, com o dedo em riste: “olha só o seu zíper!”. O Chefe, desengonçado, virou-se para um lado e não só puxou o zíper, como aproveitou para elevar as calças, que já começavam a descer demais. A gargalhada geral soou como um desabafo das mulheres. Nesse dia se firmou de vez a tese de que Mara era apenas uma mulher excessivamente tímida em matéria de relacionamento conjugal.
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