O histórico movimento que está nas ruas do país revela aspectos que merecem, a meu ver, certa reflexão. É notadamente importante e positivo que as pessoas exerçam cidadania e se manifestem democraticamente, sempre, é claro, sem violência. Isto é o exercício da democracia no Estado Democrático de Direito que, felizmente, e graças à luta de muitos brasileiros, conquistamos. E é preciso que sejamos responsáveis para preservar.
No entanto, entidades sociais não participaram ou não se fizeram presentes, o que seria natural em ocasiões como essas, até em função da história política do Brasil após a redemocratização. A legitimidade tende a ser fortalecida com os movimentos sociais, e não devem ser rechaçados. Houve, por exemplo, hostilização ao movimento por moradia, que exerce protagonismo no Brasil. A história mostra que movimentos sociais sem organização perdem em legitimidade e não avançam na conquista de demandas, por mais legítimas que sejam.
Outro aspecto a considerar é a ausência de alguns temas. Um deles, historicamente presente nas manifestações nacionais, a reforma agrária, não entrou em pauta. Por quê? Será que não é do interesse coletivo da sociedade brasileira que haja justiça social no campo? Por que não estamos discutindo isso?
É inegável que o Brasil tirou milhões de pessoas da extrema pobreza nos últimos anos, mas ainda há milhões que desejam ingressar no mercado de consumo e ter vida mais digna. Para isso as políticas públicas de inclusão social devem ser mantidas, aperfeiçoadas e até corrigidas, se necessário. Certamente que população, direta ou indiretamente, pode contribuir.
As questões não se restringem, obviamente, ao Passe Livre. A corrupção, a má qualidade da educação, da saúde, do transporte coletivo, a crítica aos partidos políticos, a PEC-37, entre outras questões, têm alvo dos protestos.
Acredito que a maturidade de nossa democracia será alcançada com o fortalecimento da participação social aliada à educação. Cabe aos governos atender as legítimas reivindicações da população e, se não puderem, que em público, discutam alternativas para que as demandas sejam atendidas satisfatoriamente.
No Estado de São Paulo, por exemplo, a falta de transparência é absurda! Um governo que veta um projeto de transparência dos dados da educação nas escolas deveria ser alvo de manifestações públicas.
Reafirmando o que disse a presidenta Dilma Rousseff em seu pronunciamento à nação: ‘se aproveitarmos bem o impulso desta nova energia política, poderemos fazer, melhor e mais rápido, muita coisa que o Brasil ainda não conseguiu realizar por causa de limitações políticas e econômicas’. E, de fato, enquanto não houver uma profunda reforma política em nosso país, as perspectivas são muito ruins. O atual modelo das instituições de representação política no Brasil não é o ideal. Por meio da reforma, poderemos aperfeiçoar as instituições e nossa democracia.
Geraldo Cruz
Deputado estadual pelo PT
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