Ouvi de uma mulher, que seu ‘companheiro’ a chama de vagabunda, e que em razão das agressões físicas e morais, não sente vontade de conversar, de trabalhar, de sair. Sua única vontade é dormir, e não ser incomodada por ninguém.
Confesso que dezoito anos de profissão não me tiraram a sensibilidade para situações do tipo. É triste saber que pessoas estão vivendo como ‘família’, mas sem mínimas condições de respeito. O que é ser vagabunda? Está nos dicionários: aquela que vagueia, que anda sem destino, nômade, andarilha, vadia, desocupada, que faz as coisas sem vontade, demonstra inconstância, volúvel, infame, canalha, desonesta e de má qualidade. Culturalmente, vagabunda é mulher desonrada que vive da exploração do próprio corpo.
Doi saber que ainda há mulheres que dão valor a tipo de relacionamento como o que acabo de descrever, e que não tem forças para dar novo alento à sua vida. Há mulher que, mesmo não sendo, ‘acredita’ que é vagabunda por causa da fala do companheiro.
O que fazer diante desse tipo de situação? Como orientar uma pessoa, uma amiga, uma cliente que é digna, honesta, trabalhadora, de que não é vagabunda? O que fazer para que deixe de ser vítima e encontre forças para romper com essa situação humilhante, e que acaba com sua dignidade?
Se o companheiro a acha vagabunda, por que continua com ela? Também ele não é vagabundo, por ainda continuar com ela? São situações comuns e complexas. A mulher, vítima dessa violência nem sempre encontra amparo emocional, profissional e pessoal para ajudá-la a sair. O companheiro sabe disso, e, porisso mesmo, continua utilizando do ‘recurso’ como forma de manter submissa, a companheira. São uma família?
Na maioria das vezes, por causa das nossas estruturas emocionais e psíquicas, não damos conta de topar com realidades e providenciar meios necessários para resolver situações cotidianas. Quando acontece, se não resolvemos, a tensão psíquica, acabamos somatizando a dor no corpo. Quantas doenças são psicossomáticas?
Posso afirmar que a grande maioria das doenças decorrem de dores psíquicas não resolvidas. Sofrimento é salutar. Não podemos viver sempre em gozo pleno e absoluto, porém, vivenciar período de dor prolongada, certamente, desencadeará doença.
No caso que hoje abordo, não basta ajudar a mulher a separar-se. Nem sempre é isso que ela deseja. Na verdade, quer o companheiro sem as violências, mas esse está tão doente quanto sua mulher. Ambos precisam de ajuda, mas, nem sempre, buscam a ajuda necessária. Acabam mantendo o ciclo viciosos que, por sinal, acaba se refletindo em todos os membros da família. Toda a família adoece e acaba carregando a doença para os demais lugares que frequenta.
Operadores do direito ajudam a resolver, com o divórcio. O psiquiatra, com remédio, ameniza a tensão psíquica. O psicanalista pode ajudar fazendo com que a pessoa descubra quem, realmente, ela é. Também não podermos ser vagabundos quando permitirmos que situações do tipo continuem ocorrendo sob os nossos olhos sem nada fazermos?
Acir de Matos Gomes
Advogado, professor universitário
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