Fogo contra fogo. A estratégia adotada pelo governo Alexandre Ferreira (PSDB) para barrar a criação de uma CEI (Comissão Especial de Inquérito) pela oposição para investigar em detalhes a relação mantida entre a Prefeitura de Franca e a Empresa São José, responsável pelo transporte público na cidade, foi propor a criação de outra comissão. Desta vez, comandada pelo líder do governo, o vereador Adérmis Marini (PSDB). A manobra causou muita confusão. Até uma reunião de emergência foi convocada pelo presidente do Legislativo, o vereador Jépy Pereira (PSDB), para tentar acalmar os ânimos e evitar um desgaste ainda maior. Não adiantou. Na sessão desta terça-feira, os vereadores devem decidir qual das comissões deverá valer.
As articulações para a abertura de uma CEI por parte da oposição, liderada pelo vereador Luís Carlos Vergara (PSB), começaram na sexta-feira passada - mesmo dia em que o prefeito se reuniu em seu gabinete a portas fechadas com os representantes do movimento Vem pra Rua Franca, responsável pela organização dos protestos. “Fui procurado para apresentar esse pedido, que acho justo e pertinente”, disse o vereador.
Durante o fim de semana, ele manteve contato com o movimento para discutir como seria a comissão. Na manhã de ontem, Vergara se reuniu com outro vereador oposicionista, Márcio do Flórida (PT), e alguns integrantes do movimento para acertar os últimos detalhes. O requerimento pedindo a criação da CEI da São José, com seis itens a serem apurados, foi protocolado às 11h04, com a assinatura de Vergara e Márcio.
MANOBRA
A articulação do governo foi rápida. Ao tomar ciência da intenção de Vergara, o líder de Alexandre na Câmara tratou de receber os representantes do Vem pra Rua. O mesmo grupo passou parte da manhã no gabinete de Adérmis Marini. Saiu de lá com a promessa de que o governo acataria a reivindicação de criar uma CEI. “O que a gente não esperava é que ela fosse ser comandada pelo próprio governo”, disse Ana Carolina Colombaroli, uma das representantes do grupo.
Assinado por cinco vereadores (Adérmis, Claudinei da Rocha - PP, Laercinho - PP, Zezinho Cabeleireiro - PPS e Luís Cordeiro - PSB), o pedido governista teve seu protocolo registrado às 11h44. Foi quando Adérmis soube que a CEI liderada por Vergara já havia sido proposta. Como o Regimento Interno da Câmara, em seu artigo 182, prevê que as matérias entrarão na pauta do dia por ordem de protocolo e que matérias de requerimento que tratam do mesmo assunto já analisado devem ser arquivadas, o requerimento de Adérmis seria prejudicado.
A esta altura, Vergara já havia convencido Radaelli (PMDB), Luís Cordeiro (PSB) e Claudinei da Rocha (PP) a também assinarem seu pedido, completando as cinco assinaturas exigidas. O governo começou, então, a pressionar Claudinei e Cordeiro para que eles retirassem suas assinaturas do requerimento da oposição.
REUNIÃO
Ao tomar ciência da confusão que se formava, o presidente do Legislativo resolveu intervir. Jépy convocou uma reunião de emergência com todos os vereadores para tentar um acordo para a apresentação de um único requerimento.
Do encontro, faltaram Josivaldo Bahia (PTB), Pastor Otávio (PTB), Zezinho Cabeleireiro (PPS) e Nirley de Souza (DEM). Com os demais vereadores e o assessor parlamentar de Alexandre, Edivaldo Costa, presentes, Jépy propôs o acordo. Adérmis aceitou que prevalecesse o requerimento de Vergara. Mas as negociações emperraram quando Márcio do Flórida lembrou que o autor do requerimento é automaticamente declarado presidente da CEI.
Como seriam dois os autores, já que Adérmis apresentaria em conjunto com Vergara, uma nova discussão se formou para definir quem presidiria a comissão. Em minoria, o pessebista tratou de pedir reforço. Convocou os representantes dos protestos para acompanhar as discussões. O grupo se sentou à mesa com os vereadores.
Depois de quase uma hora de muito bate-boca e troca de farpas, Jépy desistiu do acordo. “Como não vamos chegar a um consenso, o melhor é esperar até amanhã e ver o que o plenário decide”, disse, encerrando a reunião.
INDEFINIÇÃO
Na sessão de hoje, os dois requerimentos serão apresentados. Por nunca ter vivido uma situação como esta em seus 20 anos como vereador, Jépy disse não saber como deverá ser o procedimento. “Vou ler os dois requerimentos e estudar o Regimento. Essa situação é inédita.”
A ideia é levar os dois requerimentos para análise da Comissão de Justiça da Câmara e do Departamento Jurídico. “Se eles forem aprovados, os vereadores decidirão o que fazer.”
Vergara disse que manterá seu posicionamento e, caso seu requerimento seja desqualificado, recorrerá à Justiça. “Não aceito parecer encomendado. Não vou recuar um milímetro.”
À noite, Adérmis disse que deverá apresentar uma nova proposta de acordo.
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